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Fôlego Campeão





Aos nove anos Gabriel Cristiano teve o braço amputado por um trem. No esporte, viu uma forma de retomar a vida. Hoje, 12 anos depois, sonha com a Paralimpíada

Quem vê a força e a determinação de Gabriel Cristiano Silva de Souza na piscina, em regime pesado de treinamento, não é capaz de imaginar a história que se esconde sob cada braçada. É durante as quase três horas que passa na raia diariamente, lutando para baixar décimos de segundos, que as lembranças do que viveu passam na sua cabeça, como um filme que começa trágico, passa por muitas cenas de superação e ganha um final merecidamente feliz. O paratleta já coleciona medalhas importantes na natação e segue lutando por uma vaga na equipe que vai representar o Brasil na Paralimpíada do Rio de Janeiro 2016. Gabriel sonha com o melhor desfecho para sua história, mas é olhando para trás que ele encontra forças e motivação para seguir em frente e chegar onde tanto almeja.

O “filme” de Gabriel começou há 12 anos nos trilhos de um trem. Era uma composição de carga, dessas que abastecem os navios atracados no porto, mas para ele, na época, uma criança levada de nove anos, era uma oportunidade de diversão. Para quem morava em um lugar sem opção de lazer, ver o trem correndo por uma linha apertada, cercada de casinhas de madeira, a poucos centímetros de distância de portas, janelas e telhados, era adrenalina em estado puro. Assim era a “quebrada” de Gabriel Cristiano. Sua casa ficava a cerca de 40 metros da linha férrea que divide a favela Prainha e o bairro Sitio Paecará, ambos no distrito de Vicente de Carvalho, Guarujá.

Tanta diversão teve dia e hora para acabar: 25 de março de 2004. Gabriel acordou às 6 horas da manhã, se arrumou para ir à aula e tomou seu café. Saiu a pé, às 6h40, e seguiu para a escola, meia hora de caminhada de sua casa. Sua mãe saiu quase no mesmo horário. Seria o seu primeiro dia no emprego novo, como faxineira em um supermercado perto de casa. Naquele dia, o menino foi dispensado mais cedo. Saiu da escola às 11h30, ansioso para chegar em casa e brincar daquilo que para ele já tinha se tornado rotina: pegar carona em um dos vagões do trem. Gabriel trocou de roupa e andou em direção ao trilho. Esperou passar o primeiro vagão, correu e pendurou-se na escada. Estava sozinho.

Cercando a linha do trem havia um local onde os moradores jogavam entulho. Os meninos que vinham dependurados no vagão costumavam saltar do trem numa pequena clareira bem ao lado do entulho. “Eu estava acostumado a passar por esse lugar do entulho, só que naquele dia jogaram uma árvore de galhos enormes no meio do lixo, e eu não sabia, né?”. Gabriel estava distraído. Quando viu o tronco grosso na direção de sua cabeça, já era tarde demais. Não deu tempo de se esquivar. A pancada na cabeça foi tão forte que ele caiu, desmaiado, o corpo inerte jogado na direção dos trilhos. Teve o braço esquerdo cortado pelo trem. “Lembro só que deu um branco”.

Menino danado

Desde pequeno Gabriel dava trabalho. “Ele não queria saber de estudar, tinha problemas com as professoras porque respondia, brigava com os outros colegas, tinha notas baixas, esse menino era danado”, conta a mãe, Maria José Silva, 53.



Ali pelos sete anos Gabriel já atravessava os trilhos e fazia amizade com os meninos da favela. O grupo de amigos cresceu aprendendo a brincadeira mais divertida do bairro: pegar carona nos vagões da composição. A regra do jogo era aparentemente simples: esperar o trem se aproximar, correr e se pendurar em uma escada na lateral do vagão. “Bigão”, apelido dado a Gabriel por ter o umbigo grande, aprendeu rápido e em pouco tempo era um dos caroneiros mais habilidosos.

Mas ele queria mais emoção, e pegar carona durante o dia não o satisfazia. O desafio passou a ser encarar a luz da locomotiva no escuro da noite. O que Gabriel não esperava é que o tio, Claudio Antônio Silva, 46, estaria por perto logo na primeira tentativa. “Vi um vulto passar. Era o Bigão, tentando pegar carona. Briguei, dei-lhe uns tapas e mandei o garoto de volta para casa. Quando falei para a mãe dele, ele já estava dormindo”, lembra.

Apesar da repreensão dura da mãe, Gabriel não parou com a brincadeira. Uma semana depois, aconteceu o que todos mais temiam. Foi muito rápido. O menino mal viu, não lembra muitos detalhes. Para ele, a memória do acidente ficou no trilho. Quando tenta lembrar a cena a imagem que vem a sua cabeça é sempre a mesma: ele deitado em uma cama, com o braço enfaixado e o apito do trem sendo magicamente substituído pelo silêncio de um hospital.

“Gabriel é abençoado”

O desastre deixou marcas profundas não apenas na pele morena de Gabriel, mas nas vidas de todos a sua volta. Os tios, Verônica e Claudio lembram-se de cada detalhe. A tia, que fazia aniversário no dia do acidente, escutava uma telemensagem de felicitação, quando ouviu um grito vindo do lado de fora: “Gabriel, Gabriel!”. Ela desligou o telefone e correu com o marido para ver o que havia acontecido. O casal deparou-se com a cena chocante de um rapaz trazendo nos braços o sobrinho desmaiado. Ao lado, um outro garoto segurava o braço de Gabriel. O desespero tomou conta da família e das pessoas na rua. Com a demora da ambulância, os tios pediram carona para a guarda portuária, que escoltava o vagão. Verônica lembra que Gabriel foi colocado no porta-malas de um Fiat Uno azul marinho, enquanto um dos guardas levava o braço. O menino foi levado para o pronto-socorro mais próximo, a sete minutos da casa da família. Lá, colocaram o braço dentro de um isopor com gelo e removeram Gabriel para o Hospital Santo Amaro, em Guarujá.

Na mesma hora, sem saber de nada, Maria, a mãe, caprichava na varrição da calçada do supermercado. “Vi o resgate passar e deu um negócio no meu peito, foi uma sensação muito ruim. Mas continuei trabalhando”, conta ela. Dali a meia hora, seu irmão Claudio chegou com a notícia. Maria saiu do trabalho imediatamente e, no caminho de volta para casa, foi parada por um vizinho falando que o filho já estava morto. Ela entrou em desespero. Foi direto para o Hospital Santo Amaro. Chegando lá, a cena era de filme de terror. O menino estava todo enfaixado, com o olho roxo e o corpo coberto de sangue. Tinha perdido a consciência.

“Gabriel é um menino abençoado”, dizia a mãe. Parecia ser mesmo. Enquanto um médico explicava que o hospital não tinha recursos para atender seu filho, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) visitavam o local e tiveram a ideia de transferi-lo para o Hospital das Clínicas para tentar implantar o braço. Gabriel seguiu de ambulância até Cubatão e lá foi colocado em um helicóptero para ir direto ao hospital, em São Paulo.

“Você não tem mais o braço”

Gabriel Cristiano chegou ao Hospital das Clínicas perto da morte. Tinha perdido muito sangue. Passou por uma cirurgia de 12 horas para a implantação do braço. Depois do procedimento, os médicos avisaram que esperariam 72 horas para ter certeza de que o implante tinha dado certo.

Não deu. Dois dias depois, ele entrou novamente no centro cirúrgico, dessa vez para amputar o membro. Agora sim, o quadro de Gabriel era estável, mas trazia marcas que ficariam para sempre. Cicatrizes, uma em sua bochecha direita e outra, a maior delas, nascendo no ombro esquerdo e seguindo até metade de suas costas. Era hora de a mãe explicar o que havia acontecido, para ela a pior parte. “O médico falou que ele ia continuar sentindo o braço e que eu ia ter que contar que ele não tinha mais. Foi muito difícil falar: filho você não tem mais o braço, você está sentindo, mas não tem mais ele”.

Um mês depois do acidente, Gabriel estava de volta à casa. O acidente não o parou. Sua mãe diz que ele ficou ainda mais danado. Continuava com notas baixas, jogava bola na rua, ia para as praias do Guarujá sozinho e ainda andava com “pessoas erradas”.

Com 11 anos fumava cigarros e tomava bebida alcoólica. Tinha o hábito de se reunir com os amigos em “festas” na rua. Em uma delas, a última que frequentou, viu meninos fumando maconha. Nesse momento, Bigão percebeu que devia se afastar para não seguir o mesmo caminho. E também porque naqueles tempos, um outro menino, também chamado Gabriel, perdeu as duas pernas em um acidente no mesmo local da linha férrea e disse a ele que havia conhecido um lugar que daria uma guinada na história dele.

Um novo começo




“Naquele tempo a gente pegava carona no ônibus. Esperavamos o motorista se distrair pra entrar pela porta de trás. Foi assim que eu fui para o Guarujá”, conta Bigão.

Ele foi atrás do “Pirata”, Alcino Neto, 46, um dos destaques do surfe adaptado no Brasil e dono da escola “Pirata Surf”. Naquele dia, era Maria Gabriela Carreiro, 34, que estava no balcão. “O Gabriel chegou na escola e não falava nada. Quando perguntei se ele queria pegar onda ele só fez sim com a cabeça. Mandei ele pegar um bodyboard e ir pra água brincar. Foi o primeiro contato que eu tive com ele. Achei que foi uma maneira mais tranquila para estabelecer uma conexão”, explica. 

Gabriel passou a frequentar a escola de surfe, onde aprendeu a teoria e a prática do esporte. Na praia das Pitangueiras viveu um dos momentos mais felizes da sua vida – sua primeira onda em pé. “Nossa, foi ‘da hora’ aquele dia! Não tive medo porque eu já nadava na maré, era “marezeiro” (risos). Subi na prancha e o Pirata ficou amarradão!”.

Um ano depois, Maria Gabriela – Gabi - que trabalhava como psicóloga esportiva da equipe de natação do Vila Souza Atlético Clube, no Guarujá, teve a ideia de levá-lo para a piscina para complementar o treinamento de surfe, mas sabia que ele não teria como pagar pelas aulas. 

“A história é até engraçada porque o diretor do clube logo perguntou: ‘como você quer que eu dê uma bolsa para um rapaz que não sabe nadar e não tem um braço? ’. Mas no final deu certo, e Gabriel começou a treinar na piscina do Vila Souza”, relembra, em meio a gargalhadas, Ricardo Santana Leite, 32, técnico da equipe.

Logo que começou, Bigão foi colocado na equipe de base - treinada pela técnica Priscila Leite, 27, irmã de Ricardo. Essa primeira fase foi de aperfeiçoamento e aprendizagem. Gabriel custou a se socializar. Tinha vergonha da cicatriz e do fato de não pagar para nadar. Mas isso foi melhorando através da vivência esportiva. Depois de um tempo, no início de 2013, passou para a equipe de treino pesado.




Ricardo logo percebeu que Gabriel tinha muita força de vontade, muita garra. Mas os obstáculos na vida do garoto ainda não haviam acabado. A família queria que ele trabalhasse para “colocar dinheiro em casa”. 

Gabi e Pirata foram até a casa dele para convencer sua família que o esporte também traria a ajuda financeira que eles precisavam. Foi nessa visita que ambos perceberam a realidade difícil de Gabriel. 

A mãe confessou que naquele tempo não dava tanta atenção aos filhos, o que mudou depois do acidente. O pai ficou preso por 11 anos. O menino não tinha chuveiro em casa, morava -e ainda mora- em um bairro perigoso, de alto risco social e muita criminalidade. Tudo isso explicava porque ele era tão calado. Mas depois de muita conversa com a família, eles concordaram em dar uma chance para que Gabriel desenvolvesse seu talento no esporte.

A evolução foi meteórica. Convocado em 2013 para representar o Brasil nos Jogos Parapan-americanos Juvenis, em Buenos Aires, na Argentina, Bigão trouxe três medalhas. Foi premiado em diversas competições, inclusive no Circuito Caixa Loterias de Atletismo e Natação - considerada a competição mais importante do País na modalidade. Gabriel também é dono do recorde brasileiro nas provas dos 100 metros borboleta e nos 50 metros nado livre.



Os bons resultados também são fruto do apoio que recebeu de diversas pessoas que conheceu na natação. É auxiliado pela Associação Paradesportiva da Baixada Santista (APBS) e participa do programa Bolsa Atleta da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer da Prefeitura de Guarujá. 

O nadador é acompanhado pelo fisioterapeuta Marco Antônio Ferreira Alves, classificador internacional do Comitê Paralímpico Brasileiro. Recebe cesta básica de uma voluntária do clube, além de ajuda do próprio Vila Souza e também de uma padaria próxima, onde almoça todos os dias de graça.

No primeiro dia de almoço na “padoca”, na companhia da psicóloga Gabi e do Pirata ele confessou que comia arroz e ovo todos os dias porque não sabia comer outra coisa. “Ele não sabia cortar carne e frango. Foi o Pirata quem ensinou. Esse foi um dia que me tocou muito, ele chorou, nós choramos. Para mim essa foi uma das experiências mais tocantes que tive na psicologia”, conta Maria Gabriela emocionada.

Como balões


Gabriel ainda mora na mesma “quebrada”, mas virou referência e uma inspiração para as crianças que até hoje se aventuram na perigosa linha férrea. Tem o apoio de toda a família, inclusive do pai. Maria, a mãe, disse que “sempre soube que o filho seria uma benção”. Em meio a muitas lágrimas, ela mal conseguia completar frases.

Gabriel nada na categoria S8. A letra “S” representa provas de estilo livre, costas e borboleta e o número 8 indica que ele é um atleta com deficiência física. Números de 1 a 10 correspondem a atletas com deficiências físicas. De 11 a 13, atletas com deficiências visuais. E 14 são os atletas com deficiências intelectuais. 

Aos 21 anos tem os pés no chão e acredita que se não conseguir participar da Paralimpíada do Rio, a Tóquio em 2020 não lhe escapa. “Ele se dedica muito à natação. Treina todos os dias, faça sol ou chuva. O Biel é um exemplo para o clube inteiro e merece muito esse lugar no pódio. Acredito no potencial dele”, diz a primeira técnica, Priscila Leite.

Os tios, Veronica e Cláudio, nem precisaram falar do orgulho que têm do sobrinho. Durante a visita da equipe de reportagem, eles apontaram para um suporte na parede da sala, repleto de medalhas. “Hoje o Gabriel é uma pessoa super dócil. Graças a Deus conseguimos resgatar uma coisa super difícil no ser humano que é a doçura”, disse Pirata.

A carreira do nadador só está começando e tem tudo para dar certo. Isso porque é um menino de muita “garra”. Treina religiosamente cerca de duas horas e meia, de terça a sábado, e faz a “dobra” três vezes na semana, quando treina duas vezes por dia. Além disso, faz atividade complementar duas vezes por semana com o fisioterapeuta Marco Antônio. “Eu costumo dizer que pessoas como o Gabriel são como balões, elas levam a gente para cima. Tenho um imenso orgulho de trabalhar com ele e tenho certeza que ele ensinou mais a mim do que eu a ele”, se emociona.

“Eu tenho o desejo que ele chegue em um pódio paralímpico. Ele merece isso. É um menino muito bom, muito disciplinado, correto, amoroso. Fortalece nosso dia acordar e ver que o Gabriel é um exemplo”, completa a psicóloga Maria Gabriela. “Hoje eu diria que ele é o melhor atleta do clube”, finaliza o técnico Ricardo.

Gabriel Cristiano segue sorrindo e brincando. Sabe que o acidente mudou seu destino e o fez trilhar um novo caminho. Foi o esporte que o tirou de uma vida sem perspectivas e trouxe amigos, conquistas e um sonho. Um sonho dourado que ele quer pendurar no pescoço: uma medalha de ouro nas Paralimpíadas do Rio.






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