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Santos pós ressaca, no olhar caiçara



Não é a primeira vez neste que a ressaca em Santos provoca estragos. Parte das tradicionais muretas da orla da praia que são consideradas cartões-postais, foram destruídas por causa da força das ondas. O Deck dos Pescadores e as ruas da Ponta da Praia foram interditados. Carros quebrados pelas calçadas, árvores sem folhas por causa do forte vento e cheiro forte de maresia, subia facilmente para os narinas. De repente Santos estava sombrio, nublado e solitário. A cidade 013 que acordou com aquela forte ressaca, ficou totalmente acinzentada.





No espelho, não reconheço mais o Marcelo


Marcella Sant Anna nasceu Marcelo. com muita Coragem e persistência superou o preconceito e assumiu a transexualidade


Texto Roberta Caprile  Fotos Jheniffer Adorno 

Realizada. É assim que Marcella Sant Anna, de 28 anos, se descreve hoje. Mas nem sempre o sorriso tímido foi tão fácil. Para se sentir confortável dentro da própria pele precisou passar por muita coisa, ainda quando menino. Ficou confuso? Pois é. A infância de Marcella também foi de muita confusão. “Eu me via de uma forma e me enquadrava socialmente de outra”, explica ela.

“Masculino” ou “Feminino” eram e ainda são as opções possíveis no campo ‘sexo’ da certidão de nascimento no momento em que a obstetra constata o órgão sexual do bebê. A definição médica é vista como obstáculo para quem não se identifica com o que está escrito ali e luta para mudar algo a que nunca teve direito de escolha.

É a realidade de Marcella, que nasceu no dia 17 de setembro de 1987, como Marcelo. Mas não apenas os aspectos físicos e padrões estéticos definem um gênero, e Marcella é prova disso.
A confusão interna veio cedo, lá pelos nove anos. “Nunca me senti confortável para brincar com meninos. Percebia uma repressão de todos os lados. A sociedade cria o menino para ser menino e a menina para ser menina, então é muito confuso”.

Quando tinha 10 anos Marcella e a família, que eram de Santos, se mudaram para São Vicente. Criada pela bisavó materna, apesar de sempre ter a mãe presente, ela começou a estudar no Fortec, onde concluiu o Ensino Médio.  Na época, ainda menino, tinha um comportamento mais heteronormativo, mas sofria com hostilidade e agressões.

Sant Anna chegou à adolescência sem ter ninguém para conversar. Não entendia porque se sentia tão diferente. A autoaceitação veio aos 16 anos, quando notou que em sua classe havia gays, transexuais e meninas descobrindo-se lésbicas.  Foi nessa época que Marcella beijou pela primeira vez seu “amor platônico”, um garoto da classe.

“Eu lembro que a gente estava no banheiro da escola e quando nos beijamos foi aquela coisa meio de livro mesmo. Eu não sentia o chão, um segundo parecia que demorava 10 minutos”.
O garoto, já assumido, foi quem impulsionou Marcella a se apropriar de sua orientação como homossexual. A partir desse momento as piadinhas começaram a ser respondidas de cabeça erguida.

UNIVERSO FEMININO
A descoberta da profissão foi logo aos 17 anos. No último ano do Ensino Médio, Marcella começou a trabalhar como ajudante de cabeleireiro.

Depois de dias de trabalho intenso ela queria extravasar. Sua diversão fora da escola e do salão passou a ser o “point” LGBT mais popular da Baixada Santista há quase 30 anos, o Quiosque da Cris, em São Vicente. Mesmo antes dos 18, Marcella passou a frequentar baladas e descobriu o palco. Vieram os shows e até participação em concursos de Drag Queens.

Durante o ensino médio ela se trasvestia apenas para os shows. “Até então eu me via como homossexual e mantinha relação com outros rapazes gays”, explica. Marcella ainda não imaginava que na intimidade mesmo era transexual, tanto que já se sentia muito bem vestida de mulher.

Ela mergulhou cada vez mais fundo no universo feminino. Comprou peruca de cabelo natural e até deixou o cabelo crescer. O ápice foi o começo da automedicação com hormônios. O corpo ganhou mais curvas. Nas blusas fluídas que desciam sobre seu colo, os seios apontavam. “Quando alguém comentava sobre a mudança, eu falava que estava fazendo tudo pela arte. A resposta estava pronta na minha cabeça, eu buscava uma desculpa para mim mesma por não me aceitar”.

O “estalo” aconteceu em uma festa na casa de um amigo. Na ocasião, uma antiga colega de escola chegou transvestida. “Eu conheci aquela moça como menino e lá estava ela com o corpo feito, peito, cabelo enorme. Quando eu a vi, pensei: quero ser assim 24 horas por dia.”

DOCE ILUSÃO
“Mãe sente. Eu sabia da condição da Marcella, desde que ela tinha dois anos”, diz a dona de casa, Claudia Aguiar Santana.

A “descoberta” aconteceu durante a primeira Parada Gay da Baixada Santista. Foi a primeira vez que Marcella, vestida de mulher, encarou a rua e a luz do dia. “Senti que saí do gueto, da obscuridade”. Uma vizinha da família viu Marcella e foi contar para a bisavó dela.

O medo de magoar os familiares e até de ser expulsa de casa fez com que Marcella não voltasse para casa naquele dia. “Desmontada”, de cara lavada pelas lágrimas, Marcella buscou abrigo na casa de uma amiga.

Cláudia Santana relembra a história: “Umas onze da noite uma amiga dela me liga, pensei: mataram, espancaram ele. A amiga então falou que não sabia como contar o que tinha acontecido e eu respondi: meu filho é ‘viado’ o que aconteceu? Bateram nele?”.

Depois desse dia Marcella percebeu que, de fato, a mãe sempre soubera. Diante da aceitação da mãe, teve certeza de que não devia satisfação a mais ninguém.

À FLOR DA PELE
Aos 18 anos Marcela optou pela terapia hormonal com um investimento do próprio bolso, usando técnicas correntes no mundo transgênero, na base do ‘diz que me diz’. Só há dois anos consultou-se com uma endocrinologista, que cobrou R$ 250,00 por um atendimento decepcionante. A médica afirmou que não receitaria remédio algum. “Ela foi negligente, não me pediu exames para saber se eu estava ferrando com meu fígado por tomar remédio em excesso, foi totalmente omissa”.

A única informação construtiva que tirou da sua primeira consulta como transgênero foi sobre a existência do ambulatório de transexualidade do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Entrei na internet, mas era uma fila enorme, não consegui nem um encaixe”.

Demorou, mas o destino deu um empurrãozinho. Através de uma postagem no Facebook, feita por Taiane Myiake, transexual ativista, Marcella tomou conhecimento do Ambulatório de Transexualidade que funciona desde o ano passado no hospital estadual Guilherme Álvaro, em Santos.

Além de procurar um tratamento hormonal correto, foi atrás de um sonho, a troca da documentação. “Eu só lembro realmente do meu nome quando vejo um documento ou uma foto antiga. No espelho eu não reconheço mais o Marcelo”, confessa.

Ela já venceu uma das batalhas. Depois de passar por diversas consultas psicológicas no Guilherme Álvaro, Marcella conseguiu uma declaração para alterar o nome de registro. Depois de inúmeros constrangimentos por ter o nome Marcelo em seus documentos desde problemas com cartão no supermercado, até falta de respeito em hospitais, Marcella poderia enfim se identificar com o nome que escolheu.

Na rua não é diferente. Segundo dados da organização Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis. “Eu, graças a Deus, nunca levei um tapa no meio da rua. Xingamentos sim”.

Na luta contra o preconceito, ela tem uma aliada e tanto. Desde o episódio da parada LGBT, Cláudia, a mãe, virou a grande defensora da filha. “Se tivesse que ter de novo, eu a teria do jeito que ela é agora. Se ela não contar com o amor da mãe o que seria? Eu defendo mesmo”.


REDESIGNAÇÃO 

“A primeira pergunta que as pessoas me fazem é se eu sou operada”. A resposta é não. Marcella não é operada e nem quer. Nem por estética, nem para obter aceitação alheia. “Eu gosto e adoraria ter a oportunidade de voltar em outra vida travesti. É diferente, não sou nem uma coisa nem outra. Eu sou transexual, travesti, transgênero. Sou isso e ponto”.

Só existe um motivo que a faça mudar de ideia: poder gerar uma vida. “Se um dia a ciência fizer com que eu possa gerar uma criança, aí sim serei a primeira a entrar na fila”.

EXPERIÊNCIAS
Após o termino do seu primeiro relacionamento Marcella decidiu abandonar tudo e partir para São Paulo, onde sentiu-se pela primeira vez  em casa.  “São Paulo é uma terra que abraça”, diz ela. Marcella morou em uma república com outras oito travestis que se prostituiam, e por influência delas, chegou a se prostituir por seis meses.

Policiais que chegam brigando, pessoas fedidas, bêbadas e até caras legais. Essas são as principais lembranças que Marcella tem da época. “Foi uma experiência interessante e não me arrependo. Mas não é fácil e é um risco à saúde física e mental. Hoje eu relembro e penso: prefiro ficar das 9h às 22h com o secador e a escova na mão, puxando o cabelo do povo, fazendo escova e engolindo progressiva”.

Com o passar do tempo, percebeu que apesar de morar com outras travestis estava, na verdade, no meio de uma competição de egos onde a mais bonita era a que levava a medalha.

Frases como “travesti sem silicone não é travesti, é viadinho”, começaram a machucar Marcella. O mundo ao qual ela acreditava pertencer dava-lhe “surras” também. Ela então desceu a serra em busca do tão desejado silicone, porém, de forma clandestina.

Na primeira tentativa, foram 26 furos na região dos glúteos para a injeção do silicone industrial, fechados com cola Super Bonder, na raça e sem anestesia. E 15 dias dormindo de barriga para baixo, sobre uma tábua de madeira. Esse foi o resultado do procedimento realizado no corpo de Marcella por outras travestis, chamadas de “bombadeiras”.

“Demorou umas três horas e foi muito doloroso. A mão da mulher tremia ao injetar o material, de tão denso. Tem muita gente que morre assim e eu dei sorte. Fiz por pressão, mas não me arrependo. Coloquei pouco”, diz Marcella.

CERTO POR LINHAS TORTAS
Marcella voltou para São Vicente depois de seis meses porque a bisavó adoeceu. “Ela não conseguia viver sem mim”, brinca.

Na praia conheceu seu atual namorado, o autônomo Yuri Fernandes Urnikis, 27, através de um amigo em comum. A princípio nenhum dos dois tinha a intenção de um relacionamento sério, mas o tempo passou e o namoro foi oficializado em maio de 2011. Pelo fato de Yuri só ter tido relacionamentos héteros, eles tinham receio da reação da família dele.

“Uma das primeiras perguntas que o pai dele me fez foi sobre o que eu fazia. Quando falei que era cabeleireira acredito que ganhei alguns pontos”.

A partir daí a aceitação só cresceu. Hoje Marcella frequenta  normalmente a casa dos pais de Yuri, que são budistas, A sogra “querida”, como ela mesma diz, aproveita o dom de Marcella para cortar os cabelos. “É um relacionamento normal, me sinto muito em família”, diz Marcella, com um sorriso no rosto.

LÁ NA FRENTE
“Eu acredito que a identidade de gênero daqui a alguns anos não vai mais ser estabelecida. As pessoas vão viver da maneira que se acham no direito de viver. Talvez as crianças não sejam mais registradas como menino ou menina, talvez seja adotada uma nova forma de registro em que se respeite isso”, diz Marcella.

Fazer faculdade está entre seus planos, um feito que ela quer dedicar à mãe Claudia. Outro sonho é formar novos cabeleireiros. E por último, mas não menos importante, Marcella lembra de Yuri: “quero continuat com ele até ficarmos bem velhinhos”.

“Tudo o que eu tiver com conforto e felicidade, serei a pessoa mais feliz do mundo. O resto são as lutas do dia a dia que não vão terminar tão cedo. Mas graças a Deus é uma batalha de mais vitórias do que derrotas”, completa.

Narrativa visual - Relacionamento Abusivo









“Quando eu mergulhei no azul do mar, sabia que era amor”



A música do grupo 14 Bis retrata o sentimento de Ana Lúcia Félix ao descobrir que seu filho tem autismo

“Tudo já estava programado para acontecer”. Esta é a frase que melhor define a mudança que ocorreu na vida da ex-professora aposentada do Ensino Fundamental, Lúcia Leite Félix, de 51 anos. Ela, que já tinha outros dois filhos, André Felipe, hoje com 26 anos e Ana Carolina, com 21, foi presenteada em 1998, com a chegada de Carlos Alberto, que hoje já está com 18 anos: um rapaz alto, magro, de sobrancelhas largas e olhar distante. “Quando veio o terceiro filho senti que era o meu bilhete premiado”, se referindo ao autismo de seu caçula.


Uma mãe coruja, assim que podemos classificar Ana Lúcia. Uma mãe zelosa e cuidadosa, que sempre estampa um largo sorriso no rosto quando fala de seus três pequenos. O termo mãe coruja não está somente na forma de dizer, na decoração podemos encontrar bibelôs que em forma do animal, que representa cada membro da família.

Criadora do Grupo Acolhe Autismo, lançado em março de 2012, Ana Lúcia lidera o grupo até hoje. O movimento vai além, ele se propõe a discutir e incluir o autista na sociedade, e tem como objetivo ser um canal de trocas de experiências entre as mães e familiares de autistas. Hoje o grupo criou uma rede, de forma informal, que apoia mães na luta por tratamentos e oportunidades melhores, além de batalhar por políticas públicas para os autistas e suas famílias.

Ana Lúcia é uma mulher que tem um coração enorme e luta não somente pelo seu filho. Ela se tornou uma ativista na luta por direitos mais amplos para os autistas, por meio do cumprimento e criação de políticas públicas que facilitem a luta de mães como ela. Porém, muitas das solicitações para as quais ela batalha já não servem para o seu caçula, mesmo assim ela ressalta: "Eu luto por eles, pois meu filho já tem uma idade avançada para determinadas lutas do grupo", ele passou da época escolar e seu distúrbio já esta sendo tratado.



Mãe de Carlos Alberto Júnior, o Caco, que aos oito anos revelou a notícia que envolveu um misto de sensações. A falta de apetite dele intrigava os pais que buscaram ajuda médica em vários especialistas. Mas até mesmo os médicos, psicólogos duvidaram que o filho de Ana Lúcia tivesse algum distúrbio mais sério. “Chegaram a me falar que era eu que não sabia cozinhar e nem alimentar meu filho direito. Eu já possuía uma bagagem com dois filhos e nada disso tinha acontecido. Fiquei aflita por não obter respostas”, conta.

Batalhadora, Ana Lúcia continuava nas buscas incessantes para descobrir o que poderia resolver a falta de apetite do caçula. Quando, em 2006, enquanto fazia buscas na internet, colocando os sintomas do filho, se deparou com o termo “autismo”, se encaixou como uma luva nos sintomas de Caco.

Em fóruns, chats e sites especializados sobre o assunto, Ana Lúcia começa a trocar experiência com outros pais que passavam pela mesma situação e buscavam ajuda. Mas foi em São Paulo que ela encontrou o diagnóstico para o seu filho em uma consulta com uma psiquiatra da Universidade de São Paulo. “Senti um grande alívio ao descobrir porque meu filho não se alimentava e apresentava comportamento diferente das outras crianças. Mas ao mesmo tempo, pensava em como eu daria o tratamento que ele precisava”, comenta. Ao contrário de muitas mães que ficam em choque com a notícia, a professora não lamentou o fato de ter um filho diferente, pelo contrário, foi um alívio descobrir o porquê do comportamento incomum do seu pequeno Caco.

“Por que eu?”. Esta, normalmente, é a primeira pergunta que vem à cabeça de quem recebe a notícia de que o filho é autista. Com Ana Lúcia foi diferente. Ela conta que durante esses anos de militância junto ao Grupo já viu diversos pais receberem a notícia e pensarem até em se matar, desistir, devolver o filho que haviam adotado ou não acreditarem naquilo que os médicos davam como diagnóstico. Mas, para Ana o que aconteceu não foi por acaso. “Quando está no nosso destino, não há como escapar”, acredita a professora.

Para evitar que mães passem pelo mesmo aperto, Ana Lúcia passou a estudar o autismo a fundo. Segundo ela, o distúrbio pode afetar as áreas sensoriais e se manifestar em sentidos diferentes para cada pessoa. No caso de Caco, o paladar foi afetado, fazendo com que ele não sentisse a textura e o gosto dos alimentos, o que tornava a refeição sem graça e sem prazer.



Além disso, o garoto falava pouco, era tímido e não se interessava muito pela escola. Esses sinais, além da falta de apetite e de um interesse obsessivo por coisas banais, como organizar brinquedos, aumentaram ainda mais a expectativa de Ana. “Ele gosta muito de carros. Quando era ele menor, fazia filas com carrinhos e dizia que era o trânsito”. O que parecia uma simples brincadeira de criança, na verdade, era um sintoma clássico do autismo: a obsessão por ordem, ou organização. “Eles precisam sentir que estão no comando. Se algo está fora do lugar, se irritam”, explica.

Caco não foi o primeiro desafio ligado à gravidez que afetou Ana. Exatamente um ano antes do nascimento dele, ela havia tido outra gravidez não planejada. Quando ela e o marido se acostumaram com a ideia da vinda de mais uma criança, descobriram que a gestação era sem embrião (quando o óvulo fertilizado se implanta no útero, porém o embrião não se desenvolve). O abortamento natural foi inevitável.

Após o trauma, enquanto estava sozinha no quarto do hospital, Ana Lúcia teve uma visão. Enxergou como se os pais de seu marido, que ela somente conheceu por fotos, estivessem vindo em sua direção. Como estava sem os óculos, ela passava a mão nos olhos para ver se certificar se o que via não era simples imaginação. Porém, a cena continuava diante de seus olhos, tal qual um filme em negativo. Ela viu seu sogro chegando mais perto, seguido da esposa que vinha com uma criança nos braços, envolvida em uma manta azul a cor símbolo do autismo.

Saindo do hospital, Ana contou para o marido sobre sua visão, que para ela na época, não teve significado. Um ano mais tarde, nasceria o seu terceiro filho, e veio o que para ela seria a resposta: A descoberta do autismo em seu caçula.

Ana enfrentou diversos percalços antes de descobrir o que realmente acontecia com seu filho. A passagem por oito pediatras que não conseguiram diagnosticar o que ocorria com Caco foi um das dificuldades. Para evitar que as mães que acabaram de descobrir o autismo em seus filhos tenham uma espera mais longa para o início do tratamento, Ana sempre indica os médicos pelos quais já passou e confia, já que é necessário um laudo que no qual conste o autismo para que os direitos das crianças sejam assegurados. “Eu encontrei uma médica muito ética”, diz.

Apesar de todo o conhecimento, ela também teve que superar uma série de obstáculos, que se tornaram uma verdadeira saga. Primeiro se viu obrigada a ir para São Paulo, onde conseguiria uma escola especial para Caco. Porém, antes disso, teve que dar entrada em uma solicitação na qual era necessária uma série de documentações para que o Estado arcasse com os estudos do filho.



A aposentada acredita que tanta burocracia para assegurar os direitos do seu caçula, seria uma tática para fazê-la desistir. Mas, por ser uma mulher determinada, em momento algum pensou em não continuar batalhando ou desistir da luta por algo melhor para seu filho.

Quando questionada se teve que alterar sua vida depois da chegada de Caco, tranquila, porém pensativa, Ana diz que não e nem teve que abandonar nenhum sonho por causa dele. As metas profissionais de sua vida já haviam sido alcançadas, porém novas surgiram, mas agora voltadas para a vida de seu filho. Ela viu que a partir daí não poderia mais ficar parada vendo que seu caçula precisava de uma atenção um pouco maior em situações simples, como ir para a escola.

Agora ela brinca que é uma espécie de “consultora online”. As pessoas que têm dúvidas a procuram através das redes sociais para pedir explicações e orientações sobre o assunto. Até mesmo pessoas de outros estados recorrem a ela para saber o que fazer. Há casos de outras professoras que também solicitam informações de como lidar com os alunos, além de pessoas que têm amigos passando por essa situação e não sabem como agir.

Uma mãe realizada. É assim que Ana Lúcia define o seu momento atual. O tratamento de Caco não depende mais de tantas medicações, ele somente toma um remédio para dormir, pois sua hiperatividade o impede de pregar os olhos.

A prova do resultado do esforço da mãe foi presenciarmos o que antes não acontecia ser pedido diante dos nossos olhos. “Mãe estou com fome, vai ficar ai conversando ao invés de colocar minha comida?”. A frase que Caco soltou próximo ao final da entrevista, mostrando assim, que o que antes faltava, hoje tem de sobra.

Eu te ensino, vó!


Com 11 anos, Jefferson Matias decidiu ensinar a avó Maria, de 83 anos, a ler e escrever. O jovem professor tem um programa rígido de aulas e objetivos bem definidos: "quero que ela aprenda a ler e a escrever para mudar o canal da televisão e ligar para o nordeste sozinha", explica. 

              

Já a avó não parece estar alinhada com esse plano de ensino. "Esse moleque não me deixa em paz, aí eu faço os gostos dele", conta a avó Maria.


As aulas acontecem toda vez que ele deseja brincar (são muitas ao longo do dia). O material foi solicitado à mãe e é organizado em uma prateleira sob a cama do docente em caixas de sapato etiquetadas com fita crepe. Ao lado do campo de futebol de botão, fica a lousa. Os dois dividem o mesmo quarto, o que impede que a aluna chegue atrasada às aulas. 




A cama da avó transforma-se em assento e a brincadeira inocente faz com que duas gerações encontrem nas letras um forma gostosa de passar o tempo. 





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