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Conheça o músico Faustino Beats



O músico e produtor baiano Faustino Beats, nome artístico de Raí Faustino, está se destacando no mundo rap. Sua relação com a música começou na adolescência e, ao longo dos anos, tocou em diversas bandas de rock e metal.

As letras de rap eram escritas em casa: “Não tinha coragem de botar a cara na rua”, conta. Com o tempo e o amadurecimento, começaram os beats, principalmente quando Faustino sentiu necessidade de fazer algo sozinho e que dependesse de menos recursos.

Atualmente, divide o trabalho musical com outro emprego. Essa conciliação, segundo ele, é viável. “Fico 8h por dia no trampo e à noite sempre foco no meu corre de música”. Quando as coisas estão mais tranquilas no trabalho, ele ainda consegue tirar um tempo para fazer coisas pessoais. “Tive sorte de trabalhar num lugar que respeita meu corre e me dá liberdade para fazer isso, de vez em quando”.
Como artista independente, a maior dificuldade é a divulgação e o marketing. “Confesso ser leigo na área, é sempre um desafio para mim fazer meu trampo chegar mais longe”. Apesar disso, a perseverança tem possibilitado muita evolução para o artista nos últimos anos.

O processo para compor geralmente tem uma mistura. Nasce de experiências de vida ou sentimentos específicos, mas Faustino gosta de utilizar poesia para levar a música a outro nível. Ele afirma ser como se estivesse desabafando e contando uma história ao mesmo tempo.

Vibes

O novo álbum Vibes Vol. 1 foi lançado dia 2 de novembro. É introspectivo, aborda assuntos sensíveis nas letras. É a correria de um jovem atrás do seu próprio som, além de retratar o amor, insegurança, depressão, superação e confiança. É um álbum humano, com traços do trap e do R&B.

Surgiu de forma espontânea, em uma viagem a São Paulo em Julho. “Foi fruto das experiências que tive lá”. Desde a ideia até o lançamento, o artista levou menos de 4 meses, fez o disco rápido pois sentiu vontade de fazer com que retratasse o momento e não ficasse antigo. E os feedbacks sobre o novo álbum foram em sua maioria, recepções positivas.

“Fiquei muito feliz”, diz Faustino, que informa que o novo trabalho foi citado em algumas listas de melhores do ano no twitter. “Agora o desafio é aumentar o alcance e a divulgação”.

O disco é muito importante para o músico porque surge em um momento de transição na vida em que está apostando muito em sua arte, amadurecendo a visão e aprendendo. “Profissionalizando, mas sem deixar minha visão artística e minha sinceridade na hora de me expressar”, comenta.

O primeiro álbum de Faustino foi ‘Kuro’, que segundo ele, foi um disco muito nerd. Desde a arte até a maneira que os beats e versos foram produzidos. “Foi algo que sempre quis fazer, um disco meio complicado de ouvir e entender, exige muita atenção. O Vibes é outro lado da moeda, apostei muito mais em clima e atmosfera, e busquei levar mais sentimento. Como o Kuro é uma trilogia e o Vibes é apenas o volume 1, ainda vou explorar bastante esses dois lados nos próximos anos”.

Sobre o próximo passo, ele comenta que é trabalhar pesado na divulgação do disco enquanto compõe novas músicas. “Fazer música é minha cachaça (risos)”.

“Quero que nossa geração de artistas salve vidas, assim como Mano Brown e Emicida me salvaram tantas vezes”

A música é um dos instrumentos mais fortes da cultura afro. É sinal de resistência. O rap e a cultura hip-hop nasceu em berço de cultura negra e “é indispensável que nossa voz esteja presente e seja ouvida na arte contemporânea”. De acordo com o músico, é mais importante que nunca afirmar que o rap é uma cultura negra e que injeta autoestima em jovens negros.

Segundo Gabriel Aragão, estudante de moda na Universidade Anhembi Morumbi, uma faixa como Kobe é importante porque passa um tipo de mensagem, é motivador. “Você se identifica com o artista, com a ideologia, se vê no lugar dele”.

No trecho de ‘Cinza pt 2’, o artista canta ‘acho que a depressão vai me pegar outra vez’ e traz uma importante reflexão sobre saúde mental. “Tem muitas pessoas sofrendo com isso mundo afora, e quando a música mostra algo assim, abrimos o debate publicamente, e as pessoas veem que não estão sozinhas”.

Trabalho

Em 2016, com o boom gerado pela música Sulicídio, Faustino ainda estava dividido entre carreira musical e rotina de vídeos no Youtube na época. “Então acho que meu verdadeiro potencial, musicalmente falando, ainda vai ser explorado daqui para frente”.

Sendo artista independente, para realizar um show basta chamar. “Ué, chama que nóis vai! (risos). Mas falando sério, a logística é a mesma de qualquer show de rap, que é um modelo barato”. Especificando: passagem, hospedagem, alimentação para o artista e para equipe e o cachê.

Quando questionado se gostaria de fazer show em Santos, o artista não demorou em responder “Claro, adoraria! Ainda quero viajar o país todo levando minha VIBES!”.

Confira uma das músicas de Vibes Vol.1:


Texto: Isabela Ribeiro
Fotos: @lucazfotos no instagram


Sete aspectos da vida de um roadie





 Poucos conhecem e apreciam essa profissão, mas ela, como qualquer outra, exige muita dedicação. A expressão roadie vem do inglês e significa “estradinha”. São os técnicos ou pessoal de apoio que viajam com uma banda em turnê e lidam com várias tarefas para a produção dos shows.

Atualmente, os roadies são indispensáveis porque executam toda pré-produção de um show, preparando inclusive o palco. Geralmente, eles assumem diversos papeis, como assistentes pessoais dos membros da banda, produtores musicais, além de gerenciar o palco, cuidar do som, afinar os instrumentos, dirigir o ônibus ou carro, e, fazer o que for preciso para o show sair com perfeição.

Fernando Henrique de Noronha Galvão, 25 anos, largou sua vida de publicitário e tornou-se um roadie. “A vida é corrida; as noites mal dormidas, mas não me arrependo em nenhum momento de ter escolhido essa profissão, porque eu trabalho com o que amo”!

Ele trabalha para três bandas da Baixada Santista, Nandox,Tr3vo e Vibehouse. E mesmo quando está sobrecarregado com as mil coisas que faz ao mesmo tempo, ele nunca deixa de sorrir. Devido a isso, Fernando conta a Viral sete aspectos da vida de um roadie:

1- O roadie trabalha por horas e horas, muitas vezes chega a virar os dias para acompanhar a banda.

2- É a famosa profissão “faz tudo”.

3- É algo que exige muita proatividade, pois tem que estar sempre disposto ao trabalho.

4- Todo roadie é apaixonado pelo que faz!

5- Ele precisa ter equilíbrio pessoal, pois é difícil trabalhar com tanta diversão ao seu lado. Então, tem que estar sempre muito bem focado.

6- Um roadie sabe que nunca tem hora certa para ir embora.

7- Todo roadie tem que ter maleta com o essencial, contendo lanterna, fitas, afinador, ferramentas, multímetro e cabos.

Ocupa mais, que tá pouco!


Festas saem das páginas do facebook para tomar conta de praças, ruas, e até cantinhos esquecidos. Música boa, curtição e catuaba gelada sempre marcam presença

Quando o relógio marcou 18h00 de sábado, 27 de fevereiro, uma notificação no Facebook avisou que a noite seria de pura festa. Não era feriado, nem mesmo a data remetia a algum acontecimento especial para os santistas ou para os amantes de boa música. O convite virtual para a “festa de ocupação” não explicava o que era uma “festa de ocupação”, mas bastou uma navegada no Google para saber sobre esse tipo de evento: não é preciso motivação especial para acontecer, trata-se apenas de uma celebração à arte, ao bom convívio entre pessoas e um pretexto para reunir quem gosta de tudo isso no espaço público. Um pouco de suspense e improviso ajudam a aumentar o charme dessas festas, o que explica o fato de, em alguns casos, o convite chegar pelas redes sociais poucas horas antes de soarem os primeiros batuques.

O rala coxa daquele sábado chamava-se Coco de Garrafada. Não é o único baile com a ideia de ocupação urbana na noite santista, mas é um dos poucos que têm o “coco” como anfitrião. Coco é o nome do gênero musical que mistura influências da umbanda e do candomblé, mas a galera costuma chamar de “som de preto” ou “som de terreiro”. “Segura as telhas que eu vou fazer a terra tremer! Meu coco é forte e tem azeite de dendê”, bradava a mensagem estampada no convite do Facebook. Horário marcado: 23 horas. Local: Praça dos Andradas, em frente à cadeia velha. O convite continua dando o tom da festança: “vai ter pisada forte, dança e daquelas que não se pode ficar parado; vai ter raiz, ciência, calor humano e tudo de graça, na praça, do povo, para o povo.”

Só nos dois últimos meses três festas com esse conceito povoaram o centro histórico santista. Além da Coco de Garrafada, teve também a ABSM e a famosa Jambu. No geral, a proposta varia de uma para outra. A primeira traz o calor do nordeste brasileiro, saias rodadas, chinelos arrastados, música ao vivo e uma bandeira contra o preconceito racial. Já a ABSM abusa de cor, luz, e faz da música eletrônica trilha sonora de um ambiente repleto de alto astral. Já a mais conhecida, a Jambu, não só valoriza o cenário alternativo da MPB, como incentiva as mais diversas intervenções artísticas e arquitetônicas no espaço público. Sua última edição, no sábado, 19 de março, foi um grande festival de 18 horas que proporcionou suspense ao manter em segredo o local do evento até poucas horas antes da festança. O que é comum nas três festas: todas lotam.

A NAU PEDE PASSAGEM
Uma hora antes do horário combinado a equipe da revista Viral já estava no local combinado para reportar o agito da Coco de Garrafada. Nenhuma pinta de festa na praça sonolenta, com poucos moradores de rua, alguns taxistas e muitas latas repletas de lixo. Nenhuma caixa de som, nenhuma latinha de cerveja.

Quem ainda não está acostumado à dinâmica desse tipo de reunião poderia até pensar que o role tinha miado. Conforme os convidados foram chegando, a praça vazia se encheu de cor. Do nada surgiram computadores, mesas cheias de botões coloridos, equipamentos de som e isopores gigantes para onde eram arremessadas dúzias de garrafas de Catuaba Selvagem. A “nau” da ferveção estava pronta para zarpar. O batuque comandado pelos “tripulantes” Piratas do Maxixe, responsáveis pela festança, cresceu a ponto de chamar a atenção até de quem passava nas ruas laterais. Chegam as meninas a bordo de suas longas saias e os meninos de largas bermudas. Chinelos de dedos estalam no chão, marcando o ritmo da melodia. Não demorou muito para que o lugar se transformasse num baile com calorosos dançarinos.

A Garrafada, assim como tantas outras festas de ocupação urbana, se propõe a promover um grande encontro a céu aberto com pessoas de várias tribos, ocupando lugares inusitados do espaço público. Trata-se de uma nova forma de ocupação pública e expressão artística, social e, muitas vezes, política. Encontros de pessoas conhecidas ou não, que propõem uma releitura dos lugares que por vezes cruzamos e não percebemos ou sequer damos importância.



No meio da balada, a estudante de 18 anos, Paula Granado, que arriscava discretos passos de dança durante a entrevista, disse que gostava daquele som e já havia comparecido em muitas outras festas de ocupação em Santos. Ela usava uma roupa bem leve, e que estava em harmonia com o tom do evento. “Não tem conflito, a maioria das pessoas se conhece e todos estão aqui apenas para curtir um ambiente diferente”.

Na alta madrugada, contar o número exato de pessoas dançando foi uma tarefa difícil. Elas chegavam de todas as partes e se entregavam de corpo e alma à tal música de preto. Alguns mostravam outras habilidades artísticas, como malabarismo, danças típicas e até capoeira. A estudante de assistência social, Kidauane Regina Alves, de 20 anos, por exemplo, sem perder o ritmo, jogava a arte marcial brasileira com amigos nos acordes da banda Coco das Águas Doces, que veio de Jundiaí para tocar no ponto máximo da ferveção, por volta das 03h00 da madrugada.

“Trata-se de um grande resgate. Trazer pessoas diferentes, para lugares diferentes, e fazer algo diferente. Tudo, claro, com peso cultural muito forte”, definiu a estudante. A Jovem destaca que ocupar espaços como foi feito com a Garrafada reforça a necessidade da população de entender a cidade de forma mais harmônica. Nesta festa o batuque é um belo estímulo para a empatia criada entre esse público fiel, de dançarinos amadores ou não. Os amigos Pedro Henrique Ferreira e Lucas Nascimento, 29 e 27 anos, são de Jundiaí e quando souberam da festa Coco de Garrafada por meio do evento no Facebook, arrumaram suas trouxas e desceram a serra. A namorada de Pedro é percursionista da banda Coco das Águas Doces, mas, para ambos, o sentimento de “fazer parte” daquilo os moveu até o centro de Santos.

Pedro Henrique defende a ideia de ocupar espaços paralelos à avenida da Praia. “A rua é pública e o povo precisa se integrar. Tem que ocupar mais, que tá pouco”. Já Lucas reforça que a música nesse tipo de reunião dá maior visibilidade a grupos e suas causas sociais. Em certo momento, uma das moças que dançava no meio da Praça, quando rodava sua longa saia branca e arrumava a postura para mostrar seu leque, fazia da sua pele morena e cabelos cacheados uma bela representação de diversas culturas.

A festa passou das 05h00. A banda já tinha retirado seus instrumentos e os equipamentos de som estavam sendo guardados também. A galera continuou se espalhando pela praça, mas dessa vez para limpar o espaço e, assim, ir embora. O domingo na Praça dos Andradas amanheceu como de costume durante o dia: muita movimentação de taxistas e pessoas que transitam entre a Rodoviária e o Terminal da viação de santos. Fora isso os mendigos continuaram ali, as latas de lixo cheias também. Não sobrou uma garrafa de Catuaba. Nenhum vestígio. Ninguém pra dizer que a festa foi “top”.

O toque que vem da senzala


A necessidade de expressão dos negros criou uma cultura, o Maracatu, que serviu para motivar a vida daqueles que sofriam com a escravidão



Música, dança, tambores, figurinos, alegorias cor e muita alegria. Desde 5 de outubro de 2003 a Baixada Santista tem o seu próprio grupo de maracatu. De origem pernambucana, com mais de 200 anos, o maracatu de baque virado nasceu na cidade do Recife e é uma manifestação de resistência do povo negro que veio da África, para ser brutamente escravizado no Brasil. Com fé nos orixás (que são elementos da natureza), na religião de matriz africana e persistência em manter sua identidade, o negro fez e faz com que esta rica cultura esteja presente em diversas regiões do Brasil

O maracatu é oriundo da coroação dos reis negros no Brasil, instituído nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário no século XVII. No século XIX, adotou o nome de maracatu, que surgiu de maneira pejorativa.

Alfaias, agbês, gonguês, caixas, ilus, atabaques e mineiros, instrumentos tradicionais dessa manifestação cultural afro-brasileira, chamam a atenção daqueles que passam pelo Centro histórico de Santos. O som é potente e enérgico. E as loas, entoadas com movimentos corporais peculiares, despertam quem escuta o som dos instrumentos da rua.

O Quiloa

A história do Maracatu Quiloa começa em outubro de 2003, quando um grupo de amigos de Santos participou de um encontro de maracatu no Sesc Itaquera, onde tiveram o primeiro contato com os tambores.



O evento aconteceu em um domingo em São Paulo, e já na segunda-feira, por coincidência, os amigos encontraram em Santos um tambor à venda, pois o dono o comprou por engano pensando que era um instrumento de percussão de escola de samba. Logo após, deram início aos ensaios do grupo, que seguiu por meses ainda sem nome.
Um dos integrantes, que na época assistia na TV Manchete a novela Xica da Silva, gostou do nome de um dos personagens da trama, que se chamava Quiloa. Foi a partir daí que surgiu a ideia de dar esse nome para o grupo. Mais tarde, descobriram que a palavra ‘loa’ no vocabulário do maracatu significa o canto entoado.

Com o tempo o Quiloa construiu uma relação de respeito às tradições das culturas da Nação do Maracatu Porto Rico e Nação do Maracatu Encanto do Pina, ambas de Recife, Pernambuco. Nações são grupos que mantém a manifestação ligada diretamente aos terreiros de candomblé, por mais de séculos.

A indumentária, os passos de dança e o impressionante ritmo da percussão não passam despercebidos. “O maracatu de baque virado é tradicionalmente uma manifestação que ocorre na rua”, explica Felipe Romano, um dos fundadores e coordenador do Quiloa. Hoje, após a consolidação do primeiro grupo de maracatu de Santos, Romano não é somente um aprendiz: é um dos batuqueiros da tradicional Nação Porto Rico de Recife. O grupo reúne atualmente cerca de 130 membros em seu principal evento, o cortejo, que ocorre anualmente 15 dias antes do Carnaval no Centro histórico de Santos.

Os ensaios acontecem na sede do Quiloa, na rua General Câmara, 99. O cortejo do Quiloa começou em 2006 e vêm se tornando tradição na Baixada recebendo público e participantes do Brasil inteiro. 

Não tem idade e nem classe social, como explica Romano. O grupo reúne todo tipo de pessoa: estudantes, professores , médicos, auxiliares de serviços gerais, jornalistas, assistente sociais, entre outras profissões. A idade dos integrantes também é variada. Se há adultos na formação, crianças são bem-vindas. Este é o caso da Manuela Romano, que acompanha o pai, Felipe Romano, nas oficinas e cortejos . Hoje, aos 9 anos, Manuela toca agbê e participa dos eventos ligados ao maracatu. “Nunca fiz as oficinas, mas aprendi a tocar os instrumentos sozinha”, conta Manu.

Há quem diga que o maracatu é um chamado, uma cultura que transforma vidas. Guilherme Marques Zupo, de 25 anos, que está no Quiloa desde 2012, já conhecia a cultura, pois já tocou em Maringá e em Recife, com a Nação Porto Rico. Neste último local conheceu Felipe Romano. “O interesse pela cultura popular e a religiosidade foi o que me levou ao maracatu. A cultura fortalece as religiões africanas e, por isso, quando soube que viria para Santos, entrei em contato com o Romano e comecei a participar do Quiloa”, afirma.

De acordo com Zupo, o maracatu é uma cultura antiga e a maioria das pessoas se conhece, o que torna a cultura uma grande família. “Costumo dizer que se quero ir para qualquer lugar do Brasil, tenho onde ficar, o maracatu é uma família”, afirma.

Para a estudante de Serviço Social, Hellen Neves, de 23 anos, o principal motivo para que ela chegasse ao encontro também foi o interesse pela história de seus ancestrais. A jovem frequenta o Quiloa Maracatu há dois anos e afirma: ‘’Eu precisava me reconhecer como mulher negra, e encontrei um espaço que conversava com o que eu buscava sobre os ancestrais da minha descendência’’.

Antes de conhecer o maracatu, Hellen conta que já havia tentado tocar diversos instrumentos e que, após o envolvimento com o ritmo marcante dos tambores, ela conseguiu tocar o agbê já no primeiro contato.

O envolvimento com um coletivo de mulheres negras, segundo Hellen, é um dos caminhos que ajudam algumas pessoas a achar sua identidade. ‘’O maracatu vira parte de nossa identidade e passamos a manifestar expressões de cultura e arte em nosso dia a dia. Hoje, por exemplo, estava em uma reunião com algumas colegas da faculdade e as chamei para conhecerem o ritmo. Elas ficaram supercuriosas e talvez venham comigo algum dia’’, acredita.

As oficinas

No total, o Maracatu Quiloa oferece três opções de cursos:

- O maracatu de baque virado – o baque da Nação Porto Rico e Encanto do Pina , aulas às segundas-feiras, às 19 horas;

- Pandeiro e Percussão para educadores, práticas e cantigas para se trabalhar na sala de aula. Encontro às terças-feiras, às 19 horas.

As oficinas terão início em Junho. Informações gerais e valores dos cursos no email oficinas.quiloa@gmail.com ou no whatsapp (13) 9962-1754 ou no endereço Facebook/quiloa


Glossário


Alfaias – Também chamado de bumbos. São tambores graves, de grandes dimensões, feitos de compensado e, em alguns grupos de tronco da macaíba (árvore que se parece com a palmeira). Seus aros são feitos de genipapo e o bojo é trançado por uma corda de sisal. Com frases sincopadas e bem marcadas, as alfaias são responsáveis pelas características principais de cada toque ou baque. Muitas vezes dividem-se em três grupos, de acordo com tamanho ou afinação, tendo cada grupo uma função rítmica diferente.

Agbê – Também conhecido como xequerê, é composto por uma teia de miçangas que envolve uma cabaça. Instrumento que veio dos terreiros para o batuque do maracatu com a função de condução similar ao do ganzá.

Gonguê – Instrumento formado por uma campânula, objeto de ferro em forma de sino, com um cabo que serve de apoio para as mãos. Tem o formato aproximado de um sino de ponta a cabeça ou um agogô de uma só boca. As frases rítmicas do gonguê são geralmente formadas por contratempos e síncopas, permitindo grande liberdade de improviso.

Caixa de guerra – Tambor agudo que produz um som alto e característico. Possui frases rítmicas com grande quantidade de notas, o que dá a este instrumento a possibilidade de coordenar e harmonizar as alfaias. São as caixas de guerra que dão a chamada para a entrada dos outros instrumentos.

Atabaque –
Instrumento primo do tambor ilú, típico de terreiro, tocado com as mãos. Seu fraseado são toques referentes a determinados orixás, a quem o maracatu presta sua homenagem. Nos cortejos, estes ilús são retirados do tripé e são amarrados ao corpo do batuqueiro por uma faixa.

Ilu, Ilú, Ylu ou Elu –
Pode ter mais de uma denominação. É um tipo de tambor afro-brasileiro usualmente utilizado em rituais religiosos, sobretudo na região Nordeste do Brasil. Normalmente tocado com as mãos, é construído geralmente sobre uma base de madeira em forma de cruz, sendo primordialmente afinado através de hastes de ferro.

Ganzá – Também chamado de mineiro. Chocalho cilíndrico responsável pelos registros mais agudos do conjunto. Um dos instrumentos mais versáteis da cultura afro-brasileira. Possui inúmeras possibilidades de sutis variações rítmicas.

O Black é Power





Didi Gomes e Preta Rara são duas cantoras negras da cidade de Santos. Nesta entrevista, elas soltam a voz em uma conversa sobre música, machismo e preconceito

Elas são de gerações diferentes, têm estilos musicais, repertórios distintos e atraem públicos completamente heterogêneos. O ponto comum entre a rapper Preta Rara, 30 anos, e a sambista Didi Gomes, 40, é que as estrelas que hoje enchem de suingue a noite santista já tiveram que bater o pé contra o machismo e o preconceito racial. A convite da revista Viral as cantoras aceitaram o desafio de dividir o microfone e conversar sobre suas histórias e bandeiras. O maior desejo de ambas é pavimentar um caminho para que outras mulheres possam cavar seu espaço em uma indústria dominada pela testosterona. Sem rodeios, as cantoras contam como mudaram o rumo de suas vidas por meio da música.




O Samba me chamou


Didi Gomes como é conhecida, ou Maria Edith, seu nome de batismo, diz que o gosto musical vem do choro. “Sou nascida e criada em um ambiente totalmente adulto, não tive uma infância normal e sou filha única”.

Com uma carreira consolidada nas rodas de samba, Didi diz que muita coisa mudou desde sua adolescência. “Em muitos lugares onde eu ia quando era adolescente, a roda era estritamente de homens. Hoje em dia já vejo mulheres tocando. E o melhor é que elas tocam de tudo, todos os instrumentos musicais que você possa imaginar”.

Apesar de ter sua voz muito comparada com a de Elis Regina, a própria Didi acha a comparação um exagero. “Ouço Elis desde os meus seis anos e simplesmente adoro. A primeira música que me inspirou a cantar foi Águas de março, talvez porque eu seja do signo de Peixes e apaixonada pelo meu mês, então, cresci cantando esta e outras músicas dela. Com isso, as pessoas fazem muitas comparações, inclusive com a filha Maria Rita. Eu realmente agradeço, mas não acho parecido”.




Inspiração, papel e caneta na mão

De turbante e batom azul para a entrevista, é nítido que Joyce Fernandes, conhecida como Preta Rara, veio para balançar as estruturas e marcar sua geração através da luta e do movimento hip hop. Sua vontade de quebrar paradigmas é clara.
A paixão de Preta pelo rap é antiga. Foi herdada do pai, que escutava
black music. “A música está presente na minha vida desde 1985”, conta. Aos sete anos começou a compor e não saiu mais desse universo. 

Apesar de conhecida no meio da música e trabalhando como rapper há mais de dez anos, Preta ainda é alvo de preconceito. “É um universo muito machista, cheio de opressões”, desabafa.


Ao mesmo tempo em que tenta peitar o preconceito, com suas canções, se liberta. “Por meio da música, me aceitei como mulher negra e gorda. Costumo afirmar que em tudo que faço ou sempre fiz, a música esteve muito presente”.


Sem desafinar, Preta abre um sorriso largo para contar da sua volta por cima. “ A maior dificuldade que enfrento é por ser mulher preta. Em todos os lugares a gente tem que provar que sabe fazer. Algumas vezes chego para fazer um show e tenho que usar o DJ da casa. Todos conseguem cantar, mas quando chega na minha vez, o meu som é o pior, o microfone começa a pipocar, não acham minha base instrumental. Infelizmente passo por isso”.


A cantora também é professora de História e dá aula para crianças. Porém, apesar de amar ser professora, sonha um dia em poder viver só da música. “A quantidade de shows que tenho hoje supera o meu salário de professora, mas ainda tenho um pé atrás de largar tudo e me arriscar. Querendo ou não, é um salário certo todo mês e o mundo do rap é bem difícil”.


Preta Rara também é uma representante do movimento feminista na Baixada Santista. Para a rapper, as mulheres não devem se calar. “Muitas mulheres aturam opressão todos os dias e, se não fosse o feminismo para me alertar, acharia que isso é normal”.

Ela pretende que suas músicas sejam divulgadas por todo o Brasil. “Minhas composições estão tocando bastante em algumas rádios de Moçambique e Angola, então daqui alguns anos espero já ter feito algum show lá”.

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