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O “Paizão” da Várzea


                                O projeto Meninos de Ouro é realizado no bairro do Bitaru, em São Vicente

O campo do Esporte Clube Guamium, no Parque Bitaru em São Vicente tem todas as características de uma boa várzea: como gramado alto, muita areia para tampar os buracos, grades e muros quebrados, facilitando o acesso, além de samba tocando no barzinho do clube, cerveja e, quase sempre, um forte sol para deixar tudo no estilo varzeano de ser. É ali que  Chrystian Alexandre Gomes Ricardo se encontrou nesse mundo.

Com 41 anos, muitos deles voltados ao futebol, Chrystian tem grande desenvoltura e fala com propriedade sobre o projeto social que ele criou quase por acidente e que visa dar oportunidades a centenas de garotos que jogam nas diversas praças de várzea da região, o “Meninos de Ouro”. Com tranquilidade e aquele famoso estilo “paizão” eternizado por Joel Santana no Futebol Brasileiro, ele se preocupa não só com a parte técnica, e talento dos atletas mirins, mas cuida também da rotina de treinos e jogos. O técnico coloca como fundamental em torno desse projeto, a parte psicológica. Ele acredita que os garotos muitas vezes criam um mundo ilusório em torno da vida de boleiro por empresários e dirigentes de clubes profissionais, achando que ganharão milhões repentinamente e serão super estrelas.

Apesar de ser associado ao Sindicato dos Treinadores do Estado de São Paulo, Chrystian também trabalha na área Portuária em Santos. Segundo ele, o Meninos de Ouro é uma homenagem ao seu pai, que na década de 1970 buscou engatar uma ação onde tirava os jovens das ruas, drogas e agregando o esporte na vida deles. Tentando seguir os passos do seu mentor paterno, Chrystian se orgulha muito do trabalho que faz no humilde bairro do Bitaru. O projeto não tem apoio algum político, mas conta com a ajuda do empresário de jogadores, Rogério Ximenes. Sem receber nada e cheio de ideias, Chrystian comanda um elenco de jovens nascidos entre 2002 e 2003, com o auxílio do preparador físico Renato Silva.  Eles preparam a equipe buscar intercâmbios em alguns clubes espanhóis.

Texto e foto: Matheus Teixeira

Números explicam bom rendimento do Santos FC na temporada

Que o Santos FC é o clube com melhor aproveitamento (63,79%) e menos derrotas (12) entre os clubes brasileiros na temporada 2016, todos já sabem. Justamente em função disso, o centro de inteligência e analise de desempenho do clube buscou outros números que exemplificam a regularidade e o bom desempenho do Peixe no ano.

Foto: Ivan Storti / Santos FC
Passe é o fundamento mais trabalhado por Dorival Júnior
A equipe comandada pelo técnico Dorival Júnior é a melhor, ou está entre as quatro melhores equipes em oito aspectos analisados pelos profissionais da comissão técnica do Peixe, com base no Instat Football, software utilizado pelo clube para medir o desempenho dos atletas e do time, como um todo, no Campeonato Brasileiro deste ano. Nos quesitos posse de bola, tempo de troca de passes em uma ação ofensiva e passes para finalizações, o Peixe lidera.

No fundamento do passe, o Santos tem o melhor aproveitamento, ao lado do Corinthians. É o terceiro colocado nas disputas de bolas aéreas. Tem também a quarta colocação nas disputas corporais e na quantidade de gols marcados em jogadas de bola parada, além de ser a segunda equipe que menos sofreu tentos dessa forma. “É uma evolução muito grande. No inicio, buscávamos isso, uma melhora no aproveitamento dos passes, que consequentemente aumentaria a nossa posse de bola e alinhando tudo isso com uma chegada forte no gol do adversário. Todos os trabalhos, desde a pré-temporada foram voltados para isso. No ano passado, tínhamos 75% de aproveitamento no passe, hoje, temos 85%”, destaca o auxiliar técnico, Lucas Silvestre.

No aspecto individual, o Peixe também tem destaques. Victor Ferraz, com 1.549 e Renato, com 1.547 passes certos, estão entre os três jogadores com maior número e melhor aproveitamento de passes no Brasileirão. Já Lucas Lima é o atleta que mais deixa os companheiros em condição de concluir. Até o momento, foram 55 passes para finalizações.

O comandante Dorival Júnior, que está no clube há um ano e três meses, credita esse bom desempenho ao tempo de trabalho à frente do time: “Tudo é uma sequência de trabalho. Só agora você começa a ter uma ideia do quanto evoluímos, e o quanto ainda precisamos evoluir. Conseguimos detectar todos os problemas e iniciar um processo de recuperação, com soluções. O Santos FC está caminhando, se preparando para alcançar resultados ainda melhores do que os obtidos até o momento, que já considero bom. Com o surgimento de novos jogadores, crescimento do grupo como um todo, mostramos amadurecimento e regularidade dentro da temporada”, disse o treinador.


Brasileiros dominam pódio na Espanha



Os surfistas Ian Gouveia, Michael Rodrigues e Tomas Hermes foram finalistas no Pantín Classic Galicia Pro, campeonato da divisão de acesso da liga mundial de surfe (WSL) que terminou neste domingo (04/09).

A etapa faz parte da gira européia do circuito e aconteceu nas ondas geladas de Pantín, norte da Espanha. Os três brasileiros fizeram a final com o surfista americano Kanoa Igarashi (de descendência japonesa mas o fera nasceu nos Estados Unidos), que venceu a disputa. Michael, Tomas e Ian foram segundo, terceiro e quarto colocados respectivamente.

Com o resultado, Michael Rodrigues subiu 26 posições no ranking e Tomas Hermes, 17. Michael é o 13º colocado e Tomas vem logo à frente na 11º colocação. Ambos estão perto de entrar para a zona de classificação para o CT, que vai até a décima posição na classificação do QS.

O circuito agora segue para o arquipélago português dos Açores, onde acontecerá o Azores Pro, na ilha de São Miguel. O campeonato começa terça-feira (6) e tem a final prevista para domingo (11). O Brasil conta com 28 atletas inscritos e você pode acompanhar a disputa ao vivo por aqui.

Assista aos melhores momentos do Pantín Classic Galicia Pro:

Experiência única nas Olimpíadas

O  jornalista Bruno Giufrida conta sua experiência na cobertura da Olímpiada do Rio 2016: "a ficha só caiu lá"
(Foto: Arquivo Pessoal/Bruno Giufrida)

A Olimpíada do Rio foi um evento único para muita gente. Para o jovem jornalista Bruno Giufrida, de 22 anos, não foi diferente. Mesmo com pouca idade e formado em Jornalismo na Unisantos no ano passado, Giufrida mostrou competência e conseguiu se destacar como repórter esportivo do globoesporte.com, principalmente cobrindo o dia a dia do Santos FC, conseguindo assim a oportunidade de trabalhar no maior evento esportivo do mundo.

Ele relata que já imaginava que poderia participar da cobertura das Olimpíadas para o site esportivo desde o ano passado. No entanto, a certeza veio no início deste ano: "eu via o pessoal (do site) fazendo o projeto, e tive a certeza de que participaria neste ano. Não sabia de muitos detalhes. Só fui informado de começo que cobriria hipismo e BMX".

"Ao ter a confirmação, sabia que seria algo espetacular, mas a minha ficha só caiu ao chegar no Rio de Janeiro. E ainda hoje não dá para ter dimensão do que significou. Acredito que só vou ter essa noção daqui a um tempo", completa.

Centro Olímpico de BMX, um dos belos locais nos Jogos
(Foto: Arquivo Pessoal/Bruno Giufrida)
Giufrida teve a oportunidade de também cobrir vela, vôlei e handebol. "Com certeza eu aprendi muito porque sou do futebol e não conhecia totalmente o mundo desses esportes. Apenas o hipismo e BMX eu já tinha a certeza de que iria cobrir, e já pude me preparar com antecedência. Então, muita coisa só comecei a pensar um dia antes, e assim só aprendendo na hora mesmo. Esse foi o principal aprendizado pra mim".

O repórter também destaca que, ao voltar para Santos, já sentiu saudades dos Jogos do Rio:  "Estar nessa Olimpíada superou toda e qualquer expectativa. Conheci gente do mundo todo, contei histórias de superação, de vitórias e derrotas, cresci como jornalista e pessoa...", enfatiza.

Sorria!



Sorria é o nome do longa metragem que vem arrancando sorrisos de surfistas mundo afora. Produzido pelo filmmaker capixaba Gabriel Novis, a obra recebeu ótimas críticas da mídia especializada internacional desde seu lançamento, no dia 29 de julho. O filme já é cotado como melhor do ano entre as produções nacionais.



Segundo o diretor, o nome do seu novo filme é inspirado na principal característica dos surfistas brasileiros: descontração e alegria. Seu objetivo é mostrar que os surfistas brasileiros, hoje mundialmente famosos pelo sucesso nas competições, também mandam bem no freesurf - sessões de treino livre, fora das competições do circuito mundial. No filme, Iago Dora, Ian Gouveia, Jessé Mendes e outros surfistas da nova geração destroem as ondas na Indonesia, Havaí, California e México.



Gabriel e Yago em perfeita sintonia durante as gravações na Califórnia. Foto: Divulgação
Gabriel, 24, vive nos Estados Unidos e é formado em Cinema pela UCLA. Ainda adolescente, quando vivia no Brasil, começou a fazer filmes por brincadeira. “Filmava meus amigos andando de skate em frente de casa, com uma camera que ganhei do meu pai, foi assim que peguei gosto pela coisa.”


Apesar de já ter no currículo trabalhos com videos publicitários e clipes de surfe, Sorria é o primeiro longa metragem de Gabriel. Mas ele quer mais. “Quero lançar outro filme no ano que vem, algo mais ambicioso e visual, como o Castles in the Sky, do Taylor Steele, um filme bem fotografado e mais clássico. Mas para isso tenho que juntar mais grana”, brinca o diretor.



Ian Gouveia é filho de uma das lendas do surfe brasileiro, Fábio Gouveia. Foto: Divulgação.

O que coloca Sorria a frente de outros filmes de surfe brasileiros é a performance espetacular dos surfistas da nova geração, além da ótima aceitação entre a crítica internacional - algo que não acontece frequentemente. Grandes veículos especializados, como Surfline, Stab Magazine e Surfing Magazine, já citam “Sorria” como o retrato da nova geração do surfe tupiniquim. Assista ao trailer:

Vôlei na era do ouro


O campeão olímpico Rodrigão, que conquistou muitas medalhas no vôlei, planeja trabalhar durante sua aposentadoria com projetos de educação na baixada santista
Rodrigo Santana, 37 anos, tem muita história para contar. Com três olimpíadas no currículo, uma medalha de ouro e duas de prata, o atleta é um exemplo de raça e determinação. Rodrigão do vôlei, como é chamado, chegou para a entrevista de bermuda, camiseta e chinelo. Do alto de seus 2,05 metros de altura, usou o bom humor para se desculpar pelo atraso de quase uma hora. Ele decidiu que a conversa com a reportagem da Viral seria ali mesmo, no hall do prédio em que reside, em Praia Grande. 

Mas ao final da conversa, a equipe já estava no apartamento para ver de perto a coleção de troféus e medalhas. A casa de Rodrigão é típica de um homem solteiro, com algumas peças de roupa espalhadas e decoração bem clean. Para onde quer que se olhe há objetos, bolas, medalhas, troféus, fotos de alguns momentos dele em quadra e até camisas autografadas por grandes atletas.


Nem sempre Rodrigo morou em Praia Grande. Ele cresceu em Osasco, onde começou sua carreira de atleta. Porém, seus padrinhos eram de Praia Grande, então ele passou boa parte da infância na cidade, pela qual ele ficou bastante ligado. “Sempre gostei daqui e como nunca pude ter um lugar fixo por causa da profissão, fiz de Praia Grande a minha base. Antes aqui era só para passar as férias. Eu nasci em Pirituba, mas com 19 anos já estava morando aqui”. 

Aposentado das competições, ele revelou que pretende tocar alguns projetos esportivos na cidade, que, segundo ele, têm muito potencial para o desenvolvimento do jovem no esporte. Rodrigão tem conversado com o prefeito Alberto Mourão sobre alguns projetos, mas são todos para 2017. “O importante do esporte é que ele ensina valores importantes. Disciplina e dedicação, por exemplo. Então mesmo que as crianças não sigam carreira esportiva, terão uma boa base. Aqui tem muitas crianças que moram em comunidades, e o ídolo delas, muitas vezes, é o dono do morro, o traficante, isso tem que mudar. Se o ídolo dele for um jogador de vôlei, de natação, ou qualquer outro esporte, isso muda o foco. A gente tem que trazer o ídolo pra perto das crianças”.

Ele conta que, desde muito jovem, escuta que é alto, que deveria se dedicar ao basquete ou ao vôlei, mas o interesse pelo esporte ainda não tinha despertado. Aos 13 anos, incentivado pela Geração do Ouro Olímpico de Barcelona de 1992, ele decidiu fazer um teste no time do Banespa, clube de tradição do voleibol paulista e que já contava com atletas de peso, como o Tande. Rodrigão foi no último dia da peneira e acabou garantindo uma das últimas vagas. Por um ano inteiro ficou no banco, não entrou em nenhum jogo e não se destacava. Mas, com muito treino, após quase dois anos de Banespa ele conseguiu entrar em quadra em um dos jogos próximos da final do campeonato. 

“Foi uma sensação boa, pois tinha um olheiro da seleção brasileira, que me convidou para ficar de reserva na seleção infantojuvenil”. A partir daí as coisas mudaram na vida de Rodrigo. Em 1994 ele foi convidado a morar nos alojamentos do Banespa e estava no banco de reservas da seleção brasileira. Em 1995, após três anos de experiência no esporte, foi convocado para jogar no time titular da seleção brasileira infantojuvenil. Foi quando ele foi para o time do Suzano, e ficou no banco de reservas do time adulto da seleção brasileira. “Saí do Banespa pois lá nunca fui titular e o Suzano me fez uma boa proposta. Me chamaram para ser titular na minha categoria e reserva da categoria adulto”.


No Suzano, a carreira do atleta deslanchou. Depois da passagem vitoriosa de quatro anos pelo time, Rodrigão jogou em diversos clubes do exterior. O primeiro foi o Estense 4 Torri Ferrara, depois o Lube Banca Marche Marcerata, ambos da Itália, e ainda Ziraat Bankasi Ankara, da Turquia. Sua última experiência estrangeira foi no Barij Essence, do Irã. 

O último jogo oficial de Rodrigão foi em 2015, na Indonésia, onde o atleta ficou por três meses. “No meu último jogo, não teve nada demais, acho que a sensação mais emocionante foi mesmo na final olímpica, em 2012, quando eu estava deixando a seleção. Uma sensação de dever cumprido”. 

Mesmo com toda essa experiência, o clube que mais marcou sua carreira foi o Suzano, não por ser o primeiro clube grande, mas porque atletas, comissão técnica e dirigentes viviam como uma grande família. 

Segundo o atleta, algumas vezes esse amor se tornava loucura, como quando o técnico comprou 300 máscaras do filme “Pânico” e distribuiu pela rquibancada, para poder assistir a um dos jogos disfarçado, pois estava expulso e não poderia acompanhar a partida. Segundo o atleta, para monitorar a viagem da equipe a caminho do jogo, o treinador costumava pedir para que o pessoal do pedágio ligasse para ele, avisando quando eles passassem pelo ponto. “Pra você ter ideia da loucura, ele colocou o Giba para morar em frente à casa dele, pra monitorar quando ele ia dormir, a hora que acordava. Tinha vezes que ele ligava na casa do Giba e falava: ´Ô Giba, já são 23h30, tá na hora de apagar a luz`.O amor e zelo ultrapassavam os limites. Mas eu sei que era por cuidado e puramente amor” relembra Rodrigão.

Com 18 anos Rodrigão teve o primeiro filho e, um ano depois, o segundo. Por estar no início de carreira, tudo foi difícil. Ele ganhava R$ 450 por mês, cerca de R$ 800 em valores de hoje. “Eu tinha dois filhos para criar, então essa época foi bem difícil, mas o vôlei sempre foi a solução pra mim”. Segundo ele, a carreira já estava consolidada, mas não tinha estrutura para criar dois filhos, mas acredita que tudo valeu a pena. “Minha relação com eles é muito boa. Hoje tenho três filhos: o mais velho, Victor Hugo (18) joga vôlei; a minha filha, Rafaela (16) não se interessa por esporte, quer outras coisas; e o mais novo, Pedro Henrique (8) é tranquilo também, mas é pequeno, não sabe o que quer, só quer brincar. Toda aquela parte complicada do começo, de não saber como criar, o que fazer, me ajudou muito hoje. A gente sai junto, conversa, brinca junto”.


Rodrigão se sente orgulhoso e bem exigente quanto ao empenho do filho mais velho no esporte. “Opino muito nos jogos. Eu critico demais porque acho que ele é muito preguiçoso. Trouxe dois atletas aqui em casa pra treinar no começo do ano e eu mostrei o porquê de eles serem melhores. Eu falava pra gente treinar às 7h, eles estavam de pé. Já meu filho não, ficava enrolando. Fiz um campeonato e meu filho ganhou no grupo, porque estava jogando com esses dois. Na disputa em duplas foram eles que ganharam porque treinavam todos os dias com afinco, enquanto ele estava com preguiça. Eu sempre falo onde ele erra, e ele sempre me dá diversas desculpas, mas faz parte”, contou o ex-jogador. 

Rodrigão considera o Lube Banca Marche, no qual jogou entre 2005 e 2008, o melhor. “Cheguei no meio do campeonato, que já estava quase perdido, e conseguimos vencer. Foi o título que eu mais comemorei”. Ele conta que havia 12 mil pessoas no estádio e os torcedores invadiram a quadra. “Eu saí quase sem roupa”, relembra. Depois disso, voltou para o Brasil para jogar no Pinheiros Sky que, segundo ele, tinha um projeto muito bom, mas foi mal administrado. 

O voleibolista trabalhou bastante para chegar onde chegou. Rodrigão desabafa que é uma profissão difícil, pois sacrifica muitas coisas, como o aniversário dos filhos, os momentos em família, mas no final é recompensador. “Nunca imaginei essa fama. Comecei a perceber o tamanho do meu nome quando fui jogar fora, aí percebi que as pessoas estavam me observando» conta o esportista. Hoje, Rodrigão pensa em ser técnico, mas para isso é necessário estudo e muita burocracia, então ainda vai esperar.

As Olimpíadas serão no Brasil e muitas pessoas se perguntam se o País tem estrutura para o evento. Para o atleta, que já esteve em Atenas, Pequim e Londres, a resposta é sim. Segundo ele, mesmo com os problemas, há muita gente competente no Comitê Olímpico. “Chance de ganhar sempre tem, mas os times são muito fortes. Chances claras de medalha. Meu medo maior é a falta de foco”. Na opinião dele, quando o time vai jogar fora do país, existe o assédio da imprensa, mas não é igual quando se joga no Brasil. “Eu quero ver como vai ser isso, porque o atleta não pode sair da quadra às 22h e ir tomar café com a Ana Maria Braga no dia seguinte. A gente tem que fechar muito bem o grupo pra essas coisas não acontecerem”, analisa o ex-jogador. 

O vôlei na vida de Rodrigão representa tudo, toda uma história, sua vida. Ele começou a jogar se inspirando em Dante, mas conta que hoje em dia não tem um ídolo específico, pois todos os jogadores têm uma história muito legal por trás.

Fôlego Campeão





Aos nove anos Gabriel Cristiano teve o braço amputado por um trem. No esporte, viu uma forma de retomar a vida. Hoje, 12 anos depois, sonha com a Paralimpíada

Quem vê a força e a determinação de Gabriel Cristiano Silva de Souza na piscina, em regime pesado de treinamento, não é capaz de imaginar a história que se esconde sob cada braçada. É durante as quase três horas que passa na raia diariamente, lutando para baixar décimos de segundos, que as lembranças do que viveu passam na sua cabeça, como um filme que começa trágico, passa por muitas cenas de superação e ganha um final merecidamente feliz. O paratleta já coleciona medalhas importantes na natação e segue lutando por uma vaga na equipe que vai representar o Brasil na Paralimpíada do Rio de Janeiro 2016. Gabriel sonha com o melhor desfecho para sua história, mas é olhando para trás que ele encontra forças e motivação para seguir em frente e chegar onde tanto almeja.

O “filme” de Gabriel começou há 12 anos nos trilhos de um trem. Era uma composição de carga, dessas que abastecem os navios atracados no porto, mas para ele, na época, uma criança levada de nove anos, era uma oportunidade de diversão. Para quem morava em um lugar sem opção de lazer, ver o trem correndo por uma linha apertada, cercada de casinhas de madeira, a poucos centímetros de distância de portas, janelas e telhados, era adrenalina em estado puro. Assim era a “quebrada” de Gabriel Cristiano. Sua casa ficava a cerca de 40 metros da linha férrea que divide a favela Prainha e o bairro Sitio Paecará, ambos no distrito de Vicente de Carvalho, Guarujá.

Tanta diversão teve dia e hora para acabar: 25 de março de 2004. Gabriel acordou às 6 horas da manhã, se arrumou para ir à aula e tomou seu café. Saiu a pé, às 6h40, e seguiu para a escola, meia hora de caminhada de sua casa. Sua mãe saiu quase no mesmo horário. Seria o seu primeiro dia no emprego novo, como faxineira em um supermercado perto de casa. Naquele dia, o menino foi dispensado mais cedo. Saiu da escola às 11h30, ansioso para chegar em casa e brincar daquilo que para ele já tinha se tornado rotina: pegar carona em um dos vagões do trem. Gabriel trocou de roupa e andou em direção ao trilho. Esperou passar o primeiro vagão, correu e pendurou-se na escada. Estava sozinho.

Cercando a linha do trem havia um local onde os moradores jogavam entulho. Os meninos que vinham dependurados no vagão costumavam saltar do trem numa pequena clareira bem ao lado do entulho. “Eu estava acostumado a passar por esse lugar do entulho, só que naquele dia jogaram uma árvore de galhos enormes no meio do lixo, e eu não sabia, né?”. Gabriel estava distraído. Quando viu o tronco grosso na direção de sua cabeça, já era tarde demais. Não deu tempo de se esquivar. A pancada na cabeça foi tão forte que ele caiu, desmaiado, o corpo inerte jogado na direção dos trilhos. Teve o braço esquerdo cortado pelo trem. “Lembro só que deu um branco”.

Menino danado

Desde pequeno Gabriel dava trabalho. “Ele não queria saber de estudar, tinha problemas com as professoras porque respondia, brigava com os outros colegas, tinha notas baixas, esse menino era danado”, conta a mãe, Maria José Silva, 53.



Ali pelos sete anos Gabriel já atravessava os trilhos e fazia amizade com os meninos da favela. O grupo de amigos cresceu aprendendo a brincadeira mais divertida do bairro: pegar carona nos vagões da composição. A regra do jogo era aparentemente simples: esperar o trem se aproximar, correr e se pendurar em uma escada na lateral do vagão. “Bigão”, apelido dado a Gabriel por ter o umbigo grande, aprendeu rápido e em pouco tempo era um dos caroneiros mais habilidosos.

Mas ele queria mais emoção, e pegar carona durante o dia não o satisfazia. O desafio passou a ser encarar a luz da locomotiva no escuro da noite. O que Gabriel não esperava é que o tio, Claudio Antônio Silva, 46, estaria por perto logo na primeira tentativa. “Vi um vulto passar. Era o Bigão, tentando pegar carona. Briguei, dei-lhe uns tapas e mandei o garoto de volta para casa. Quando falei para a mãe dele, ele já estava dormindo”, lembra.

Apesar da repreensão dura da mãe, Gabriel não parou com a brincadeira. Uma semana depois, aconteceu o que todos mais temiam. Foi muito rápido. O menino mal viu, não lembra muitos detalhes. Para ele, a memória do acidente ficou no trilho. Quando tenta lembrar a cena a imagem que vem a sua cabeça é sempre a mesma: ele deitado em uma cama, com o braço enfaixado e o apito do trem sendo magicamente substituído pelo silêncio de um hospital.

“Gabriel é abençoado”

O desastre deixou marcas profundas não apenas na pele morena de Gabriel, mas nas vidas de todos a sua volta. Os tios, Verônica e Claudio lembram-se de cada detalhe. A tia, que fazia aniversário no dia do acidente, escutava uma telemensagem de felicitação, quando ouviu um grito vindo do lado de fora: “Gabriel, Gabriel!”. Ela desligou o telefone e correu com o marido para ver o que havia acontecido. O casal deparou-se com a cena chocante de um rapaz trazendo nos braços o sobrinho desmaiado. Ao lado, um outro garoto segurava o braço de Gabriel. O desespero tomou conta da família e das pessoas na rua. Com a demora da ambulância, os tios pediram carona para a guarda portuária, que escoltava o vagão. Verônica lembra que Gabriel foi colocado no porta-malas de um Fiat Uno azul marinho, enquanto um dos guardas levava o braço. O menino foi levado para o pronto-socorro mais próximo, a sete minutos da casa da família. Lá, colocaram o braço dentro de um isopor com gelo e removeram Gabriel para o Hospital Santo Amaro, em Guarujá.

Na mesma hora, sem saber de nada, Maria, a mãe, caprichava na varrição da calçada do supermercado. “Vi o resgate passar e deu um negócio no meu peito, foi uma sensação muito ruim. Mas continuei trabalhando”, conta ela. Dali a meia hora, seu irmão Claudio chegou com a notícia. Maria saiu do trabalho imediatamente e, no caminho de volta para casa, foi parada por um vizinho falando que o filho já estava morto. Ela entrou em desespero. Foi direto para o Hospital Santo Amaro. Chegando lá, a cena era de filme de terror. O menino estava todo enfaixado, com o olho roxo e o corpo coberto de sangue. Tinha perdido a consciência.

“Gabriel é um menino abençoado”, dizia a mãe. Parecia ser mesmo. Enquanto um médico explicava que o hospital não tinha recursos para atender seu filho, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) visitavam o local e tiveram a ideia de transferi-lo para o Hospital das Clínicas para tentar implantar o braço. Gabriel seguiu de ambulância até Cubatão e lá foi colocado em um helicóptero para ir direto ao hospital, em São Paulo.

“Você não tem mais o braço”

Gabriel Cristiano chegou ao Hospital das Clínicas perto da morte. Tinha perdido muito sangue. Passou por uma cirurgia de 12 horas para a implantação do braço. Depois do procedimento, os médicos avisaram que esperariam 72 horas para ter certeza de que o implante tinha dado certo.

Não deu. Dois dias depois, ele entrou novamente no centro cirúrgico, dessa vez para amputar o membro. Agora sim, o quadro de Gabriel era estável, mas trazia marcas que ficariam para sempre. Cicatrizes, uma em sua bochecha direita e outra, a maior delas, nascendo no ombro esquerdo e seguindo até metade de suas costas. Era hora de a mãe explicar o que havia acontecido, para ela a pior parte. “O médico falou que ele ia continuar sentindo o braço e que eu ia ter que contar que ele não tinha mais. Foi muito difícil falar: filho você não tem mais o braço, você está sentindo, mas não tem mais ele”.

Um mês depois do acidente, Gabriel estava de volta à casa. O acidente não o parou. Sua mãe diz que ele ficou ainda mais danado. Continuava com notas baixas, jogava bola na rua, ia para as praias do Guarujá sozinho e ainda andava com “pessoas erradas”.

Com 11 anos fumava cigarros e tomava bebida alcoólica. Tinha o hábito de se reunir com os amigos em “festas” na rua. Em uma delas, a última que frequentou, viu meninos fumando maconha. Nesse momento, Bigão percebeu que devia se afastar para não seguir o mesmo caminho. E também porque naqueles tempos, um outro menino, também chamado Gabriel, perdeu as duas pernas em um acidente no mesmo local da linha férrea e disse a ele que havia conhecido um lugar que daria uma guinada na história dele.

Um novo começo




“Naquele tempo a gente pegava carona no ônibus. Esperavamos o motorista se distrair pra entrar pela porta de trás. Foi assim que eu fui para o Guarujá”, conta Bigão.

Ele foi atrás do “Pirata”, Alcino Neto, 46, um dos destaques do surfe adaptado no Brasil e dono da escola “Pirata Surf”. Naquele dia, era Maria Gabriela Carreiro, 34, que estava no balcão. “O Gabriel chegou na escola e não falava nada. Quando perguntei se ele queria pegar onda ele só fez sim com a cabeça. Mandei ele pegar um bodyboard e ir pra água brincar. Foi o primeiro contato que eu tive com ele. Achei que foi uma maneira mais tranquila para estabelecer uma conexão”, explica. 

Gabriel passou a frequentar a escola de surfe, onde aprendeu a teoria e a prática do esporte. Na praia das Pitangueiras viveu um dos momentos mais felizes da sua vida – sua primeira onda em pé. “Nossa, foi ‘da hora’ aquele dia! Não tive medo porque eu já nadava na maré, era “marezeiro” (risos). Subi na prancha e o Pirata ficou amarradão!”.

Um ano depois, Maria Gabriela – Gabi - que trabalhava como psicóloga esportiva da equipe de natação do Vila Souza Atlético Clube, no Guarujá, teve a ideia de levá-lo para a piscina para complementar o treinamento de surfe, mas sabia que ele não teria como pagar pelas aulas. 

“A história é até engraçada porque o diretor do clube logo perguntou: ‘como você quer que eu dê uma bolsa para um rapaz que não sabe nadar e não tem um braço? ’. Mas no final deu certo, e Gabriel começou a treinar na piscina do Vila Souza”, relembra, em meio a gargalhadas, Ricardo Santana Leite, 32, técnico da equipe.

Logo que começou, Bigão foi colocado na equipe de base - treinada pela técnica Priscila Leite, 27, irmã de Ricardo. Essa primeira fase foi de aperfeiçoamento e aprendizagem. Gabriel custou a se socializar. Tinha vergonha da cicatriz e do fato de não pagar para nadar. Mas isso foi melhorando através da vivência esportiva. Depois de um tempo, no início de 2013, passou para a equipe de treino pesado.




Ricardo logo percebeu que Gabriel tinha muita força de vontade, muita garra. Mas os obstáculos na vida do garoto ainda não haviam acabado. A família queria que ele trabalhasse para “colocar dinheiro em casa”. 

Gabi e Pirata foram até a casa dele para convencer sua família que o esporte também traria a ajuda financeira que eles precisavam. Foi nessa visita que ambos perceberam a realidade difícil de Gabriel. 

A mãe confessou que naquele tempo não dava tanta atenção aos filhos, o que mudou depois do acidente. O pai ficou preso por 11 anos. O menino não tinha chuveiro em casa, morava -e ainda mora- em um bairro perigoso, de alto risco social e muita criminalidade. Tudo isso explicava porque ele era tão calado. Mas depois de muita conversa com a família, eles concordaram em dar uma chance para que Gabriel desenvolvesse seu talento no esporte.

A evolução foi meteórica. Convocado em 2013 para representar o Brasil nos Jogos Parapan-americanos Juvenis, em Buenos Aires, na Argentina, Bigão trouxe três medalhas. Foi premiado em diversas competições, inclusive no Circuito Caixa Loterias de Atletismo e Natação - considerada a competição mais importante do País na modalidade. Gabriel também é dono do recorde brasileiro nas provas dos 100 metros borboleta e nos 50 metros nado livre.



Os bons resultados também são fruto do apoio que recebeu de diversas pessoas que conheceu na natação. É auxiliado pela Associação Paradesportiva da Baixada Santista (APBS) e participa do programa Bolsa Atleta da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer da Prefeitura de Guarujá. 

O nadador é acompanhado pelo fisioterapeuta Marco Antônio Ferreira Alves, classificador internacional do Comitê Paralímpico Brasileiro. Recebe cesta básica de uma voluntária do clube, além de ajuda do próprio Vila Souza e também de uma padaria próxima, onde almoça todos os dias de graça.

No primeiro dia de almoço na “padoca”, na companhia da psicóloga Gabi e do Pirata ele confessou que comia arroz e ovo todos os dias porque não sabia comer outra coisa. “Ele não sabia cortar carne e frango. Foi o Pirata quem ensinou. Esse foi um dia que me tocou muito, ele chorou, nós choramos. Para mim essa foi uma das experiências mais tocantes que tive na psicologia”, conta Maria Gabriela emocionada.

Como balões


Gabriel ainda mora na mesma “quebrada”, mas virou referência e uma inspiração para as crianças que até hoje se aventuram na perigosa linha férrea. Tem o apoio de toda a família, inclusive do pai. Maria, a mãe, disse que “sempre soube que o filho seria uma benção”. Em meio a muitas lágrimas, ela mal conseguia completar frases.

Gabriel nada na categoria S8. A letra “S” representa provas de estilo livre, costas e borboleta e o número 8 indica que ele é um atleta com deficiência física. Números de 1 a 10 correspondem a atletas com deficiências físicas. De 11 a 13, atletas com deficiências visuais. E 14 são os atletas com deficiências intelectuais. 

Aos 21 anos tem os pés no chão e acredita que se não conseguir participar da Paralimpíada do Rio, a Tóquio em 2020 não lhe escapa. “Ele se dedica muito à natação. Treina todos os dias, faça sol ou chuva. O Biel é um exemplo para o clube inteiro e merece muito esse lugar no pódio. Acredito no potencial dele”, diz a primeira técnica, Priscila Leite.

Os tios, Veronica e Cláudio, nem precisaram falar do orgulho que têm do sobrinho. Durante a visita da equipe de reportagem, eles apontaram para um suporte na parede da sala, repleto de medalhas. “Hoje o Gabriel é uma pessoa super dócil. Graças a Deus conseguimos resgatar uma coisa super difícil no ser humano que é a doçura”, disse Pirata.

A carreira do nadador só está começando e tem tudo para dar certo. Isso porque é um menino de muita “garra”. Treina religiosamente cerca de duas horas e meia, de terça a sábado, e faz a “dobra” três vezes na semana, quando treina duas vezes por dia. Além disso, faz atividade complementar duas vezes por semana com o fisioterapeuta Marco Antônio. “Eu costumo dizer que pessoas como o Gabriel são como balões, elas levam a gente para cima. Tenho um imenso orgulho de trabalhar com ele e tenho certeza que ele ensinou mais a mim do que eu a ele”, se emociona.

“Eu tenho o desejo que ele chegue em um pódio paralímpico. Ele merece isso. É um menino muito bom, muito disciplinado, correto, amoroso. Fortalece nosso dia acordar e ver que o Gabriel é um exemplo”, completa a psicóloga Maria Gabriela. “Hoje eu diria que ele é o melhor atleta do clube”, finaliza o técnico Ricardo.

Gabriel Cristiano segue sorrindo e brincando. Sabe que o acidente mudou seu destino e o fez trilhar um novo caminho. Foi o esporte que o tirou de uma vida sem perspectivas e trouxe amigos, conquistas e um sonho. Um sonho dourado que ele quer pendurar no pescoço: uma medalha de ouro nas Paralimpíadas do Rio.






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