Pages

Mostrando postagens com marcador Edição 1. Mostrar todas as postagens

No espelho, não reconheço mais o Marcelo


Marcella Sant Anna nasceu Marcelo. com muita Coragem e persistência superou o preconceito e assumiu a transexualidade


Texto Roberta Caprile  Fotos Jheniffer Adorno 

Realizada. É assim que Marcella Sant Anna, de 28 anos, se descreve hoje. Mas nem sempre o sorriso tímido foi tão fácil. Para se sentir confortável dentro da própria pele precisou passar por muita coisa, ainda quando menino. Ficou confuso? Pois é. A infância de Marcella também foi de muita confusão. “Eu me via de uma forma e me enquadrava socialmente de outra”, explica ela.

“Masculino” ou “Feminino” eram e ainda são as opções possíveis no campo ‘sexo’ da certidão de nascimento no momento em que a obstetra constata o órgão sexual do bebê. A definição médica é vista como obstáculo para quem não se identifica com o que está escrito ali e luta para mudar algo a que nunca teve direito de escolha.

É a realidade de Marcella, que nasceu no dia 17 de setembro de 1987, como Marcelo. Mas não apenas os aspectos físicos e padrões estéticos definem um gênero, e Marcella é prova disso.
A confusão interna veio cedo, lá pelos nove anos. “Nunca me senti confortável para brincar com meninos. Percebia uma repressão de todos os lados. A sociedade cria o menino para ser menino e a menina para ser menina, então é muito confuso”.

Quando tinha 10 anos Marcella e a família, que eram de Santos, se mudaram para São Vicente. Criada pela bisavó materna, apesar de sempre ter a mãe presente, ela começou a estudar no Fortec, onde concluiu o Ensino Médio.  Na época, ainda menino, tinha um comportamento mais heteronormativo, mas sofria com hostilidade e agressões.

Sant Anna chegou à adolescência sem ter ninguém para conversar. Não entendia porque se sentia tão diferente. A autoaceitação veio aos 16 anos, quando notou que em sua classe havia gays, transexuais e meninas descobrindo-se lésbicas.  Foi nessa época que Marcella beijou pela primeira vez seu “amor platônico”, um garoto da classe.

“Eu lembro que a gente estava no banheiro da escola e quando nos beijamos foi aquela coisa meio de livro mesmo. Eu não sentia o chão, um segundo parecia que demorava 10 minutos”.
O garoto, já assumido, foi quem impulsionou Marcella a se apropriar de sua orientação como homossexual. A partir desse momento as piadinhas começaram a ser respondidas de cabeça erguida.

UNIVERSO FEMININO
A descoberta da profissão foi logo aos 17 anos. No último ano do Ensino Médio, Marcella começou a trabalhar como ajudante de cabeleireiro.

Depois de dias de trabalho intenso ela queria extravasar. Sua diversão fora da escola e do salão passou a ser o “point” LGBT mais popular da Baixada Santista há quase 30 anos, o Quiosque da Cris, em São Vicente. Mesmo antes dos 18, Marcella passou a frequentar baladas e descobriu o palco. Vieram os shows e até participação em concursos de Drag Queens.

Durante o ensino médio ela se trasvestia apenas para os shows. “Até então eu me via como homossexual e mantinha relação com outros rapazes gays”, explica. Marcella ainda não imaginava que na intimidade mesmo era transexual, tanto que já se sentia muito bem vestida de mulher.

Ela mergulhou cada vez mais fundo no universo feminino. Comprou peruca de cabelo natural e até deixou o cabelo crescer. O ápice foi o começo da automedicação com hormônios. O corpo ganhou mais curvas. Nas blusas fluídas que desciam sobre seu colo, os seios apontavam. “Quando alguém comentava sobre a mudança, eu falava que estava fazendo tudo pela arte. A resposta estava pronta na minha cabeça, eu buscava uma desculpa para mim mesma por não me aceitar”.

O “estalo” aconteceu em uma festa na casa de um amigo. Na ocasião, uma antiga colega de escola chegou transvestida. “Eu conheci aquela moça como menino e lá estava ela com o corpo feito, peito, cabelo enorme. Quando eu a vi, pensei: quero ser assim 24 horas por dia.”

DOCE ILUSÃO
“Mãe sente. Eu sabia da condição da Marcella, desde que ela tinha dois anos”, diz a dona de casa, Claudia Aguiar Santana.

A “descoberta” aconteceu durante a primeira Parada Gay da Baixada Santista. Foi a primeira vez que Marcella, vestida de mulher, encarou a rua e a luz do dia. “Senti que saí do gueto, da obscuridade”. Uma vizinha da família viu Marcella e foi contar para a bisavó dela.

O medo de magoar os familiares e até de ser expulsa de casa fez com que Marcella não voltasse para casa naquele dia. “Desmontada”, de cara lavada pelas lágrimas, Marcella buscou abrigo na casa de uma amiga.

Cláudia Santana relembra a história: “Umas onze da noite uma amiga dela me liga, pensei: mataram, espancaram ele. A amiga então falou que não sabia como contar o que tinha acontecido e eu respondi: meu filho é ‘viado’ o que aconteceu? Bateram nele?”.

Depois desse dia Marcella percebeu que, de fato, a mãe sempre soubera. Diante da aceitação da mãe, teve certeza de que não devia satisfação a mais ninguém.

À FLOR DA PELE
Aos 18 anos Marcela optou pela terapia hormonal com um investimento do próprio bolso, usando técnicas correntes no mundo transgênero, na base do ‘diz que me diz’. Só há dois anos consultou-se com uma endocrinologista, que cobrou R$ 250,00 por um atendimento decepcionante. A médica afirmou que não receitaria remédio algum. “Ela foi negligente, não me pediu exames para saber se eu estava ferrando com meu fígado por tomar remédio em excesso, foi totalmente omissa”.

A única informação construtiva que tirou da sua primeira consulta como transgênero foi sobre a existência do ambulatório de transexualidade do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Entrei na internet, mas era uma fila enorme, não consegui nem um encaixe”.

Demorou, mas o destino deu um empurrãozinho. Através de uma postagem no Facebook, feita por Taiane Myiake, transexual ativista, Marcella tomou conhecimento do Ambulatório de Transexualidade que funciona desde o ano passado no hospital estadual Guilherme Álvaro, em Santos.

Além de procurar um tratamento hormonal correto, foi atrás de um sonho, a troca da documentação. “Eu só lembro realmente do meu nome quando vejo um documento ou uma foto antiga. No espelho eu não reconheço mais o Marcelo”, confessa.

Ela já venceu uma das batalhas. Depois de passar por diversas consultas psicológicas no Guilherme Álvaro, Marcella conseguiu uma declaração para alterar o nome de registro. Depois de inúmeros constrangimentos por ter o nome Marcelo em seus documentos desde problemas com cartão no supermercado, até falta de respeito em hospitais, Marcella poderia enfim se identificar com o nome que escolheu.

Na rua não é diferente. Segundo dados da organização Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis. “Eu, graças a Deus, nunca levei um tapa no meio da rua. Xingamentos sim”.

Na luta contra o preconceito, ela tem uma aliada e tanto. Desde o episódio da parada LGBT, Cláudia, a mãe, virou a grande defensora da filha. “Se tivesse que ter de novo, eu a teria do jeito que ela é agora. Se ela não contar com o amor da mãe o que seria? Eu defendo mesmo”.


REDESIGNAÇÃO 

“A primeira pergunta que as pessoas me fazem é se eu sou operada”. A resposta é não. Marcella não é operada e nem quer. Nem por estética, nem para obter aceitação alheia. “Eu gosto e adoraria ter a oportunidade de voltar em outra vida travesti. É diferente, não sou nem uma coisa nem outra. Eu sou transexual, travesti, transgênero. Sou isso e ponto”.

Só existe um motivo que a faça mudar de ideia: poder gerar uma vida. “Se um dia a ciência fizer com que eu possa gerar uma criança, aí sim serei a primeira a entrar na fila”.

EXPERIÊNCIAS
Após o termino do seu primeiro relacionamento Marcella decidiu abandonar tudo e partir para São Paulo, onde sentiu-se pela primeira vez  em casa.  “São Paulo é uma terra que abraça”, diz ela. Marcella morou em uma república com outras oito travestis que se prostituiam, e por influência delas, chegou a se prostituir por seis meses.

Policiais que chegam brigando, pessoas fedidas, bêbadas e até caras legais. Essas são as principais lembranças que Marcella tem da época. “Foi uma experiência interessante e não me arrependo. Mas não é fácil e é um risco à saúde física e mental. Hoje eu relembro e penso: prefiro ficar das 9h às 22h com o secador e a escova na mão, puxando o cabelo do povo, fazendo escova e engolindo progressiva”.

Com o passar do tempo, percebeu que apesar de morar com outras travestis estava, na verdade, no meio de uma competição de egos onde a mais bonita era a que levava a medalha.

Frases como “travesti sem silicone não é travesti, é viadinho”, começaram a machucar Marcella. O mundo ao qual ela acreditava pertencer dava-lhe “surras” também. Ela então desceu a serra em busca do tão desejado silicone, porém, de forma clandestina.

Na primeira tentativa, foram 26 furos na região dos glúteos para a injeção do silicone industrial, fechados com cola Super Bonder, na raça e sem anestesia. E 15 dias dormindo de barriga para baixo, sobre uma tábua de madeira. Esse foi o resultado do procedimento realizado no corpo de Marcella por outras travestis, chamadas de “bombadeiras”.

“Demorou umas três horas e foi muito doloroso. A mão da mulher tremia ao injetar o material, de tão denso. Tem muita gente que morre assim e eu dei sorte. Fiz por pressão, mas não me arrependo. Coloquei pouco”, diz Marcella.

CERTO POR LINHAS TORTAS
Marcella voltou para São Vicente depois de seis meses porque a bisavó adoeceu. “Ela não conseguia viver sem mim”, brinca.

Na praia conheceu seu atual namorado, o autônomo Yuri Fernandes Urnikis, 27, através de um amigo em comum. A princípio nenhum dos dois tinha a intenção de um relacionamento sério, mas o tempo passou e o namoro foi oficializado em maio de 2011. Pelo fato de Yuri só ter tido relacionamentos héteros, eles tinham receio da reação da família dele.

“Uma das primeiras perguntas que o pai dele me fez foi sobre o que eu fazia. Quando falei que era cabeleireira acredito que ganhei alguns pontos”.

A partir daí a aceitação só cresceu. Hoje Marcella frequenta  normalmente a casa dos pais de Yuri, que são budistas, A sogra “querida”, como ela mesma diz, aproveita o dom de Marcella para cortar os cabelos. “É um relacionamento normal, me sinto muito em família”, diz Marcella, com um sorriso no rosto.

LÁ NA FRENTE
“Eu acredito que a identidade de gênero daqui a alguns anos não vai mais ser estabelecida. As pessoas vão viver da maneira que se acham no direito de viver. Talvez as crianças não sejam mais registradas como menino ou menina, talvez seja adotada uma nova forma de registro em que se respeite isso”, diz Marcella.

Fazer faculdade está entre seus planos, um feito que ela quer dedicar à mãe Claudia. Outro sonho é formar novos cabeleireiros. E por último, mas não menos importante, Marcella lembra de Yuri: “quero continuat com ele até ficarmos bem velhinhos”.

“Tudo o que eu tiver com conforto e felicidade, serei a pessoa mais feliz do mundo. O resto são as lutas do dia a dia que não vão terminar tão cedo. Mas graças a Deus é uma batalha de mais vitórias do que derrotas”, completa.

Vôlei na era do ouro


O campeão olímpico Rodrigão, que conquistou muitas medalhas no vôlei, planeja trabalhar durante sua aposentadoria com projetos de educação na baixada santista
Rodrigo Santana, 37 anos, tem muita história para contar. Com três olimpíadas no currículo, uma medalha de ouro e duas de prata, o atleta é um exemplo de raça e determinação. Rodrigão do vôlei, como é chamado, chegou para a entrevista de bermuda, camiseta e chinelo. Do alto de seus 2,05 metros de altura, usou o bom humor para se desculpar pelo atraso de quase uma hora. Ele decidiu que a conversa com a reportagem da Viral seria ali mesmo, no hall do prédio em que reside, em Praia Grande. 

Mas ao final da conversa, a equipe já estava no apartamento para ver de perto a coleção de troféus e medalhas. A casa de Rodrigão é típica de um homem solteiro, com algumas peças de roupa espalhadas e decoração bem clean. Para onde quer que se olhe há objetos, bolas, medalhas, troféus, fotos de alguns momentos dele em quadra e até camisas autografadas por grandes atletas.


Nem sempre Rodrigo morou em Praia Grande. Ele cresceu em Osasco, onde começou sua carreira de atleta. Porém, seus padrinhos eram de Praia Grande, então ele passou boa parte da infância na cidade, pela qual ele ficou bastante ligado. “Sempre gostei daqui e como nunca pude ter um lugar fixo por causa da profissão, fiz de Praia Grande a minha base. Antes aqui era só para passar as férias. Eu nasci em Pirituba, mas com 19 anos já estava morando aqui”. 

Aposentado das competições, ele revelou que pretende tocar alguns projetos esportivos na cidade, que, segundo ele, têm muito potencial para o desenvolvimento do jovem no esporte. Rodrigão tem conversado com o prefeito Alberto Mourão sobre alguns projetos, mas são todos para 2017. “O importante do esporte é que ele ensina valores importantes. Disciplina e dedicação, por exemplo. Então mesmo que as crianças não sigam carreira esportiva, terão uma boa base. Aqui tem muitas crianças que moram em comunidades, e o ídolo delas, muitas vezes, é o dono do morro, o traficante, isso tem que mudar. Se o ídolo dele for um jogador de vôlei, de natação, ou qualquer outro esporte, isso muda o foco. A gente tem que trazer o ídolo pra perto das crianças”.

Ele conta que, desde muito jovem, escuta que é alto, que deveria se dedicar ao basquete ou ao vôlei, mas o interesse pelo esporte ainda não tinha despertado. Aos 13 anos, incentivado pela Geração do Ouro Olímpico de Barcelona de 1992, ele decidiu fazer um teste no time do Banespa, clube de tradição do voleibol paulista e que já contava com atletas de peso, como o Tande. Rodrigão foi no último dia da peneira e acabou garantindo uma das últimas vagas. Por um ano inteiro ficou no banco, não entrou em nenhum jogo e não se destacava. Mas, com muito treino, após quase dois anos de Banespa ele conseguiu entrar em quadra em um dos jogos próximos da final do campeonato. 

“Foi uma sensação boa, pois tinha um olheiro da seleção brasileira, que me convidou para ficar de reserva na seleção infantojuvenil”. A partir daí as coisas mudaram na vida de Rodrigo. Em 1994 ele foi convidado a morar nos alojamentos do Banespa e estava no banco de reservas da seleção brasileira. Em 1995, após três anos de experiência no esporte, foi convocado para jogar no time titular da seleção brasileira infantojuvenil. Foi quando ele foi para o time do Suzano, e ficou no banco de reservas do time adulto da seleção brasileira. “Saí do Banespa pois lá nunca fui titular e o Suzano me fez uma boa proposta. Me chamaram para ser titular na minha categoria e reserva da categoria adulto”.


No Suzano, a carreira do atleta deslanchou. Depois da passagem vitoriosa de quatro anos pelo time, Rodrigão jogou em diversos clubes do exterior. O primeiro foi o Estense 4 Torri Ferrara, depois o Lube Banca Marche Marcerata, ambos da Itália, e ainda Ziraat Bankasi Ankara, da Turquia. Sua última experiência estrangeira foi no Barij Essence, do Irã. 

O último jogo oficial de Rodrigão foi em 2015, na Indonésia, onde o atleta ficou por três meses. “No meu último jogo, não teve nada demais, acho que a sensação mais emocionante foi mesmo na final olímpica, em 2012, quando eu estava deixando a seleção. Uma sensação de dever cumprido”. 

Mesmo com toda essa experiência, o clube que mais marcou sua carreira foi o Suzano, não por ser o primeiro clube grande, mas porque atletas, comissão técnica e dirigentes viviam como uma grande família. 

Segundo o atleta, algumas vezes esse amor se tornava loucura, como quando o técnico comprou 300 máscaras do filme “Pânico” e distribuiu pela rquibancada, para poder assistir a um dos jogos disfarçado, pois estava expulso e não poderia acompanhar a partida. Segundo o atleta, para monitorar a viagem da equipe a caminho do jogo, o treinador costumava pedir para que o pessoal do pedágio ligasse para ele, avisando quando eles passassem pelo ponto. “Pra você ter ideia da loucura, ele colocou o Giba para morar em frente à casa dele, pra monitorar quando ele ia dormir, a hora que acordava. Tinha vezes que ele ligava na casa do Giba e falava: ´Ô Giba, já são 23h30, tá na hora de apagar a luz`.O amor e zelo ultrapassavam os limites. Mas eu sei que era por cuidado e puramente amor” relembra Rodrigão.

Com 18 anos Rodrigão teve o primeiro filho e, um ano depois, o segundo. Por estar no início de carreira, tudo foi difícil. Ele ganhava R$ 450 por mês, cerca de R$ 800 em valores de hoje. “Eu tinha dois filhos para criar, então essa época foi bem difícil, mas o vôlei sempre foi a solução pra mim”. Segundo ele, a carreira já estava consolidada, mas não tinha estrutura para criar dois filhos, mas acredita que tudo valeu a pena. “Minha relação com eles é muito boa. Hoje tenho três filhos: o mais velho, Victor Hugo (18) joga vôlei; a minha filha, Rafaela (16) não se interessa por esporte, quer outras coisas; e o mais novo, Pedro Henrique (8) é tranquilo também, mas é pequeno, não sabe o que quer, só quer brincar. Toda aquela parte complicada do começo, de não saber como criar, o que fazer, me ajudou muito hoje. A gente sai junto, conversa, brinca junto”.


Rodrigão se sente orgulhoso e bem exigente quanto ao empenho do filho mais velho no esporte. “Opino muito nos jogos. Eu critico demais porque acho que ele é muito preguiçoso. Trouxe dois atletas aqui em casa pra treinar no começo do ano e eu mostrei o porquê de eles serem melhores. Eu falava pra gente treinar às 7h, eles estavam de pé. Já meu filho não, ficava enrolando. Fiz um campeonato e meu filho ganhou no grupo, porque estava jogando com esses dois. Na disputa em duplas foram eles que ganharam porque treinavam todos os dias com afinco, enquanto ele estava com preguiça. Eu sempre falo onde ele erra, e ele sempre me dá diversas desculpas, mas faz parte”, contou o ex-jogador. 

Rodrigão considera o Lube Banca Marche, no qual jogou entre 2005 e 2008, o melhor. “Cheguei no meio do campeonato, que já estava quase perdido, e conseguimos vencer. Foi o título que eu mais comemorei”. Ele conta que havia 12 mil pessoas no estádio e os torcedores invadiram a quadra. “Eu saí quase sem roupa”, relembra. Depois disso, voltou para o Brasil para jogar no Pinheiros Sky que, segundo ele, tinha um projeto muito bom, mas foi mal administrado. 

O voleibolista trabalhou bastante para chegar onde chegou. Rodrigão desabafa que é uma profissão difícil, pois sacrifica muitas coisas, como o aniversário dos filhos, os momentos em família, mas no final é recompensador. “Nunca imaginei essa fama. Comecei a perceber o tamanho do meu nome quando fui jogar fora, aí percebi que as pessoas estavam me observando» conta o esportista. Hoje, Rodrigão pensa em ser técnico, mas para isso é necessário estudo e muita burocracia, então ainda vai esperar.

As Olimpíadas serão no Brasil e muitas pessoas se perguntam se o País tem estrutura para o evento. Para o atleta, que já esteve em Atenas, Pequim e Londres, a resposta é sim. Segundo ele, mesmo com os problemas, há muita gente competente no Comitê Olímpico. “Chance de ganhar sempre tem, mas os times são muito fortes. Chances claras de medalha. Meu medo maior é a falta de foco”. Na opinião dele, quando o time vai jogar fora do país, existe o assédio da imprensa, mas não é igual quando se joga no Brasil. “Eu quero ver como vai ser isso, porque o atleta não pode sair da quadra às 22h e ir tomar café com a Ana Maria Braga no dia seguinte. A gente tem que fechar muito bem o grupo pra essas coisas não acontecerem”, analisa o ex-jogador. 

O vôlei na vida de Rodrigão representa tudo, toda uma história, sua vida. Ele começou a jogar se inspirando em Dante, mas conta que hoje em dia não tem um ídolo específico, pois todos os jogadores têm uma história muito legal por trás.

Um toque do Nordeste




A história de um nordestino que veio tentar a vida no sudeste, conseguindo dar a volta por cima, sendo um caiçara arretado.

Televisão, sofás, mesa de jantar, porta-retratos e quadros. Aparentemente uma típica sala de casa paulista, como qualquer outra do Guarujá, se não fosse pelos chapéus nordestinos empilhados em cima da estante. Dentre eles, se destacam um chapéu de vaqueiro e um parecido com o que Luiz Gonzaga – ícone nordestino – costumava usar. É nesse ambiente, com um toque do Nordeste, que José Rodrigues dos Santos se sente confortável para começar a contar um pouco sobre sua vida.

A sessão de perguntas foi iniciada por ele com um sotaque bem carregado: “Vocês estão avexados?” – expressão nordestina que significa apressados. E nós, como jornalistas dispostos a fazer uma boa entrevista, respondemos: “não”.

Os 14 anos vividos no Nordeste, na cidade de Porto Real do Colégio, localizada a duas horas de Maceió, no estado de Alagoas, não trazem boas lembranças para Rodrigues. Nos anos 70, os nordestinos não recebiam ajuda do governo como recebem hoje.

“Na minha época, quando vinha a seca, não morria só o gado, morria gente também. Lembro de alguns dias acordar de noite com minha mãe chorando, porque não tinha um caroço de feijão em casa”, diz.

A fome, além de ter sido a maior das dificuldades, foi o que influenciou sua mãe e irmãos a deixarem a cidade natal para tentar a vida em Guarujá, assim como alguns familiares já haviam feito antes.

Dentre tantas lembranças ruins, o nordestino consegue lembrar de uma boa, que lhe arranca até risadas: o fato de ter escolhido o próprio sobrenome. Algo que poucas pessoas podem se dar o luxo. Isso porque na cidade onde nasceu, o registro era feito na igreja, e quando as crianças católicas eram batizadas, o padre já colocava o nome. Na vez de Rodrigues, seu nome ficou apenas como José.

“Meus pais eram separados, e meu pai não quis me dar o registro. Só aos 14 anos, quando tive de deixar o Nordeste, é que fui em busca do cartório mais próximo e me registrei. Pelo fato do meu pai nunca ter sido presente, só coloquei os sobrenomes da minha mãe”, explica.

No Guarujá, Rodrigues não passou por muitas dificuldades, mas o frio, segundo ele, foi um grande desafio. “Quando cheguei aqui, não estava acostumado com o inverno. Cheguei a ficar 15 dias sem tomar banho. Quando eu conseguia tomar, era só grude na pele. Hoje, graças a Deus, esse frio não existe mais”.

Apesar da baixa temperatura no inverno, foi aqui que a vida do nordestino começou a melhorar. Quase um ano após ter chegado à cidade, com apenas 14 anos, ele arranjou seu primeiro emprego, como cobrador de ônibus na Viação Guarujá. Na época, não existia lei contra o trabalho infantil.

Depois disso, passou por vários trabalhos. Foi padeiro, pedreiro, confeiteiro e outros, até encontrar sua vocação: ser motorista de táxi. Função que exerce até hoje, após 30 anos, e afirma que foi a profissão que o escolheu e não o contrário. Isso porque a sorte deu um empurrãozinho: “Após ter conseguido meu próprio táxi, através do meu irmão, o mesmo me arrendou o ponto, algo que só consegui comprar por causa de um prêmio acumulado de uma quina, e desde 1988 aquele ponto é meu”, conta.

Além de ter encontrado sua vocação, foi a profissão de taxista que deu origem ao apelido Rodrigão da Parada. “No ponto tinha pelo menos oito Josés. Foi pelo meu sobrenome Rodrigues, que cheguei em Rodrigão”. Depois disso, por causa de uma loja de CDs que Rodrigão abriu na cidade, com o nome de Parada Popular, alguns amigos começaram a chamá-lo de Rodrigão da Parada. O apelido colou e hoje a maioria das pessoas o conhece assim.

Por conta do trabalho, Rodrigão não tem uma rotina regrada. “Não tenho horário certo para acordar ou ir ao trabalho. Mas na hora que levanto, não faço corpo mole e me pico (expressão nordestina que significa saio correndo)”.

Hoje, além de ser taxista, ele também produz eventos, apresenta o programa ‘Rodrigão da Parada e sua gente’ na TV Guarujá, que divulga bandas e casas de forró. No programa, conta com a ajuda da produtora Maria Aparecida dos Santos Nunes, que ele conhece carinhosamente por Cida e a considera como uma amiga. Cida guarda boas lembranças dessa amizade. “Um dia fomos gravar com o Frank Aguiar em São Paulo. Gravamos tudo e só ao término da entrevista o cinegrafista viu que a câmera estava sem cartão, ou seja, não havia gravado nada. Foi chato, mais depois rimos muito”, lembra.

Para manter o laço com suas origens, Rodrigão é presidente da Associação dos Nordestinos da Ilha de Santo Amaro, que é referência da cultura nordestina na cidade. E também tem uma trajetória na política, apesar da ideia de tentar ser político não ter partido dele. “Comecei a ajudar um amigo muito próximo que era candidato a vereador. Um dia ele teve uma dor de cabeça e morreu em 24 horas. Os médicos alegaram que era meningite. Foi quando me convenceram a ficar no lugar dele. Saí e tive mais de 600 votos na primeira eleição”.

Depois desse episódio, Rodrigão voltou a ser candidato a vereador em 2012 e para a Câmara Federal em 2014, sem sucesso. Atualmente ele é pré-candidato a vereador, com um sonho a ser realizado: criar um Centro de Tradições Nordestinas no Guarujá, para dar à cidade mais um toque do Nordeste.

Os mais de seis mil quilômetros que distanciam Rodrigão de suas origens não são um empecilho na hora de matar as saudades de sua terra. “Por conta de questões financeiras, fiquei 12 anos sem conseguir voltar para o Nordeste, mas essa dificuldade não existe mais. Hoje, sempre que posso, vou até lá. Já fiz 18 viagens de carro e duas de avião”.

Enquanto espera a próxima oportunidade, ele mata as saudades no cômodo ao lado de onde conta essas histórias. Lá podemos encontrar coleções de CDs, DVDs e discos de vinil de bandas nordestinas, além de retratos dele com importantes cantores de bandas de sucesso como Belutti, da dupla Marcos e Belutti, e Caju e Castanha.

Mesmo com tantas lembranças e saudades, e até uma proposta de emprego para voltar para o Nordeste, a família que Rodrigão criou em Guarujá – sua esposa e quatro filhos - é que o impede de voltar para suas origens. “Já recebi proposta de voltar, mas eu não quis por conta de uma frase que um dos meus filhos falou para mim: ‘Pai, parabéns pela proposta, mas me sinto mais seguro com você aqui’. Pelo fato de minha família vir sempre em primeiro lugar, essa volta está fora de questão”, garante.

O fato de se autodefinir como uma pessoa bem família não é da boca para fora. Seus familiares mais próximos corroboram tal afirmação, e enquanto Rodrigão participa de uma sessão de fotos (ou bater retrato, como ele diz) que vai ilustrar essa matéria, eles ainda vão um pouco além. “Ele faz e sempre fez tudo pela família. Nunca tratou nenhum dos filhos diferente, nem os dois que têm comigo, nem os dois que teve no primeiro casamento. Além disso, também é uma pessoa muito trabalhadora e honesta”, enfatiza Luciana Maria Rodrigues, que mantém há 30 anos uma união estável com Rodrigão.

Na hora de tecer comentários, os filhos também não economizam: “Sempre foi um pai amigo. Que chega, conversa e vê quando a gente não está bem”, diz Arthur Rodrigues dos Santos. Sua irmã, Thaís Rodrigues dos Santos, finaliza: “Se algum dia eu tiver uma família, farei de tudo para criá-la exatamente do jeito que ele fez com a gente”.

Enquanto ouvia os elogios, Rodrigão não emitiu um som sequer, se bem que não foi necessário, pois seus olhos encharcados falaram mais que sua boca. Mas como qualquer nordestino cabra macho, os enxugou rapidamente e já deixou o sorriso tomar conta do rosto.


Mesmo com a família e corpo em São Paulo, a alma de Rodrigão não está completamente em um só lugar. Ela se divide entre onde atualmente mora e onde viveu sua infância. “O Nordeste representa minha origem. Adoro o Guarujá pois tenho raiz aqui. A família que criei, meu táxi, o pouco que eu tenho é daqui. Mas nada como uma buchada de bode para relembrar a minha terra”.

Após muitas histórias, elogios e emoções, a família se reuniu para “bater um retrato”, como ele mesmo diz

É ELE!


Não é só o Nordeste que está presente no dia a dia do Rodrigão, a expressão ‘É ele’ também. Algo que começou de uma zoação ao atender o telefone. “Essa expressão surgiu porque as pessoas ligavam para mim e perguntavam quem era que estava falando. Eu ficava meio bravo por me ligarem e perguntarem isso. Então eu zoava respondendo: ‘É ele’. Às vezes me confundo e atendo até o telefone do ponto de táxi assim”. Hoje, Rodrigão afirma que a expressão virou marca e que utiliza, com bastante frequência, no seu programa na TV.

Mais acessadas