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De salto alto

A Baixada Santista nunca foi tão glamurosa. Ser Drag Queen hoje dispensa ainda mais rótulos e o que vale é se jogar. Mais jovens do que nunca, rapazes se inspiram em divas da noite, fazem carão e lá se vai mais um rímel...

Não é novidade que as drag queens sempre chamaram a atenção pelo visual extravagante, e por isso mesmo brilham em festas da comunidade LGBT mundo a fora. Elas se destacam também pela pluralidade de atitudes: pode ser por mera experimentação, diversão, ato político e até como escudo para os tímidos, que se sentem empoderados quando se montam –aqui o verbo montar equivale a transformar-se, caracterizar-se como um personagem, como o próprio alter ego. Fato é que a arte de fazer drag nunca esteve tão presente na Baixada Santista. Sim é uma arte, segundo os adeptos. E detalhe: a maioria mergulhou no mundo das perucas, cílios gigantes e purpurina no início da vida adulta. 

Em algumas casas noturnas da cidade elas reinam soberanas. Mandam e desmandam. Muitas vezes marcam presença como VIPs, afinal ninguém resiste ao figurino fashionista à atitude descolada dessas divas da noite. Antes dos portões da Tribal Club, em Santos, serem abertos ao público elas fazem cena, tiram selfies com as pessoas da fila, mandam beijos e postam tudo em suas respectivas contas no Instagram. Celebridades em ascensão constante, as drags vêm assumindo personalidade de porta-vozes do movimento. 

Sob as camadas de pancake, litros de laquê e maquiagem pesada, escondem-se seres humanos em busca de respeito e muitas vezes reconhecimento profissional. Para isso apresentamos dois extremos: Rodrigo Oliveira, que topou o desafio da Viral e se montou pela primeira vez na vida; e Felippe Souza, exBianca DellaFancy, que prefere não ser mais uma das drags mais famosas da noite paulistana, mas acredita que deixou um legado. No meio disso tudo, Lorena Lauritzen, ou Pedro Henrique, que depois de um expediente no fim de semana em uma operadora de telemarketing, coloca todo mundo para dançar em troca de um dinheiro “extra”... A mãe, por sua vez, se sente muito orgulho do filho que tem.

De Rodrigo, a Jhennypher


Rodrigo Oliveira nasceu em São Paulo. Foi criado no Guarujá e agora, aos 22 anos, escolheu viver em Santos. Sem trabalho fixo e com os estudos interrompidos, ele faz a linha “dono de casa”. Quando não está ajeitando alguma coisa no apartamento que divide com o namorado, passa horas vendo e revendo as temporadas de RuPaul’s Drag Race, no Netflix. “Adoro! Conheço todas as participantes, e sei cada uma das frases e expressões usadas pela mama ru” (apelido do apresentador e idealizador do reality show de drag queens americanos). A série, nos moldes dos realities de aspirantes a modelo, já é sucesso no Brasil e tem um roteiro que busca humanizar os personagens.

Sua admiração pelo programa ultrapassa alguns obstáculos. Rodrigo assume que tem conflitos familiares quando o assunto é a sua orientação sexual, mas reforça que isso não o limita de seguir sua vida como pretende. Para esta pauta, a Viral precisava de um rapaz que nunca havia se montado. Ele aceitou de primeira, aliás, já escolheu até um nome cheio de consoantes para seu personagem: Jhennypher Lightwood.

Viral - Antes de receber o convite da revista, você já havia pensado em se transformar em drag queen?
Rodrigo - Em partes. Nunca tive vontade a ponto de tomar essa iniciativa sozinho. Eu já era assumidamente gay quando comecei a acompanhar RuPaul’s, e só assistia porque eu tinha muita curiosidade sobre o que acontecia no processo antes e depois da montagem. Foi meio gradativo. Aos poucos fui pensando mais na ideia de me montar. Eu já sou muito fã de divas pop, que de certa forma conversam com o mesmo público também. Assim, o convite para o ensaio chegou e eu me senti confiante para esse momento.

Como é a Jhennyfer Lightwood? Você seguiu os passos de alguém para traçar a personalidade de seu “novo você”? Sou hiper fã de Adore Delano, uma drag americana que canta muito bem. Eu vejo que existem drags queens de diversos estilos, e a Delano tem um visual mais “rock star”. Eu gosto disso, e fiz o possível para que a Jhennypher transparecesse essa imagem também. Sobre o nome… eu sinceramente não sei explicar [risos]. Eu criei esse nome com a ajuda de amigos e não vejo um significado específico para isso. O som ficou bom e eu adotei para minha drag.

Você se montou exclusivamente para o ensaio, mas no fundo não há vontade de sair na rua de Jhennypher? Para uma balada, talvez? Vamos por etapas [risos]. Eu, mesmo que brincalhão, sou muito tímido, e o ensaio já está sendo um grande passo para a desconstrução da minha vergonha. A maioria das pessoas em nosso país têm um pensamento ainda muito conservador, e eu me preocupo com isso. Quando vejo uma drag na balada fico empolgado, outras pessoas que não frequentam lugares ou não entendem a realidade das drags podem ser hostis.

Em relação aos amigos e ao namorado, como foi a recepção da notícia que você seria drag por um dia? A maioria dos meus amigos adoraram a ideia, pois trocamos figurinhas sobre RuPaul’s. Meu namorado apoiou bastante. É bom estar perto de pessoas que me apoiam assim de forma tão ampla. Fiquei decepcionado com um amigo que, quando soube, desdenhou da ideia de “querer ser mulher”, como ele disse. Bom, eu não quero ser mulher. Nunca quis. Esse pensamento é muito antigo. E certamente, as pessoas que são drags não querem ser o sexo oposto. São artistas, não? [risos].

Rainha da pista

Lorena Lauritzen (Arquivo pessoal)

Todo fim de semana é assim. Acaba o expediente de Pedro, de 19 anos, em uma operadora de telemarketing, e ele corre para o camarim do dia e prepara tudo para dar um show. Tem dias que é na Tribal, em Santos, em outros a balada rola na The Club, São Vicente. Até na Blue Space, da capital Paulista, ela já comandou a pista de dança da noite LGBT. De Guarujá para o universo drag, Pedro Henrique Carvalho, ou, para quem o encontrar atrás de uma mesa de som com muita maquiagem, Lorena Lauritzen.

Na noite da realização do concurso da drag mais incrível da Tribal, em meados de março, Lorena acena para os “migos” e as “migas”, encara as inimigas, e comanda uma playlist que vai de Beyoncé até Britney Spears. Ela usa um look básico, trabalhado no preto, mas que brilha e a deixa luxuosa.

Viral - Quanto você gastou para se montar esta noite?
Lorena - Só R$ 25. Me faltavam os cílios [risos]. Drag queen em Santos não é tão bem valorizada, e alguns locais não querem pagar quando nos convidam. Ou então pedem para a gente se apresentar / tocar em troca de bebida free na balada. Já dizia a música Dona da também drag Glória Goove, acham que consumação paga peruca.

Você começou a ser drag cedo. Algum motivo específico? Não exatamente. Comecei a me montar depois de tanto assistir shows da drag Samanta Banks na Tribal. Com 17 anos eu usava meu RG falso para entrar na balada. Em certo momento vi a Samanta e fiquei impressionado. Aquela artista negra fazendo aquele carão... quis fazer aquilo também. Adotei umas características minhas para a Lorena, por exemplo: sou negra e afeminada.

Como é a sua relação com a família em razão de você também ser Lorena? Meus familiares sabem, mas eu só ficaria montado para a minha mãe, a única que realmente me apoia. Devo muito a ela por ser Lorena Lauritzen. Ela ama me ver montada. Me ajuda, empresta roupas para compor meus looks. Não é todo mundo que gosta das drags. A Lorena mesmo, tem gente que acha ela depravada, mas eu nem ligo pra isso. Me importo com o que a minha mãe pensa de mim, e se ela quer eu passe 24 horas montada só para ela, então a Lorena vai ser depravada mesmo. Beijos!.

Carão não é tudo

Bianca DellaFancy (Arquivo pessoal)

O número crescente de homens e mulheres que se dispuseram a vivenciar o mundo drag, se deve à popularização do reality RuPaul’s Drag Race. Para alguns, no entanto, a vida de glamour e brilho chegou ao fim. É o caso de Felippe Souza, de 26 anos. Ele simplesmente se cansou de tantos procedimentos para esconder sobrancelha, a genitália, e qualquer outro traço que remeta a seu gênero de origem. Ex-Bianca DellaFancy, muito conhecida na noite Paulistana, há pouco menos de um semestre, tirou a peruca e decidiu deixar sua personalidade exuberante apenas no perfil do Facebook.

Viral - Por que você não é mais Bianca DellaFancy? 
Felippe - Na verdade eu ainda sou. Não gosto de dizer que a Bianca não existe mais, pois foram dois incríveis anos de reconhecimento para a minha personagem dentro e fora do estado de São Paulo. Aí que está o problema. A Bianca ficou conhecida e teve diversos privilégios nas melhores casas noturnas. Nem todo mundo conheceu o Felippe. De fato ela virou uma celebridade, visto que, quando posto alguma coisa na conta dela no Facebook ou Instagram, recebo muitas curtidas e elogios. Penso: “mas eu não fiz nada [risos]”, e ainda assim tem gente dizendo que ama a drag. Por isso mantenho o perfil ativo, pois eu vejo que deixei um legado com a minha drag, mas viver de carão não é comigo.

Digamos que você ganhou a oportunidade de se montar mais uma vez... Bom, aceitaria, se me pagassem muito bem por isso. Houve momentos em que eu gastei R$ 500 em um dia na balada, e o que eu recebia por fazer presença VIP não dava para manter o estilo da personagem.

Fôlego Campeão





Aos nove anos Gabriel Cristiano teve o braço amputado por um trem. No esporte, viu uma forma de retomar a vida. Hoje, 12 anos depois, sonha com a Paralimpíada

Quem vê a força e a determinação de Gabriel Cristiano Silva de Souza na piscina, em regime pesado de treinamento, não é capaz de imaginar a história que se esconde sob cada braçada. É durante as quase três horas que passa na raia diariamente, lutando para baixar décimos de segundos, que as lembranças do que viveu passam na sua cabeça, como um filme que começa trágico, passa por muitas cenas de superação e ganha um final merecidamente feliz. O paratleta já coleciona medalhas importantes na natação e segue lutando por uma vaga na equipe que vai representar o Brasil na Paralimpíada do Rio de Janeiro 2016. Gabriel sonha com o melhor desfecho para sua história, mas é olhando para trás que ele encontra forças e motivação para seguir em frente e chegar onde tanto almeja.

O “filme” de Gabriel começou há 12 anos nos trilhos de um trem. Era uma composição de carga, dessas que abastecem os navios atracados no porto, mas para ele, na época, uma criança levada de nove anos, era uma oportunidade de diversão. Para quem morava em um lugar sem opção de lazer, ver o trem correndo por uma linha apertada, cercada de casinhas de madeira, a poucos centímetros de distância de portas, janelas e telhados, era adrenalina em estado puro. Assim era a “quebrada” de Gabriel Cristiano. Sua casa ficava a cerca de 40 metros da linha férrea que divide a favela Prainha e o bairro Sitio Paecará, ambos no distrito de Vicente de Carvalho, Guarujá.

Tanta diversão teve dia e hora para acabar: 25 de março de 2004. Gabriel acordou às 6 horas da manhã, se arrumou para ir à aula e tomou seu café. Saiu a pé, às 6h40, e seguiu para a escola, meia hora de caminhada de sua casa. Sua mãe saiu quase no mesmo horário. Seria o seu primeiro dia no emprego novo, como faxineira em um supermercado perto de casa. Naquele dia, o menino foi dispensado mais cedo. Saiu da escola às 11h30, ansioso para chegar em casa e brincar daquilo que para ele já tinha se tornado rotina: pegar carona em um dos vagões do trem. Gabriel trocou de roupa e andou em direção ao trilho. Esperou passar o primeiro vagão, correu e pendurou-se na escada. Estava sozinho.

Cercando a linha do trem havia um local onde os moradores jogavam entulho. Os meninos que vinham dependurados no vagão costumavam saltar do trem numa pequena clareira bem ao lado do entulho. “Eu estava acostumado a passar por esse lugar do entulho, só que naquele dia jogaram uma árvore de galhos enormes no meio do lixo, e eu não sabia, né?”. Gabriel estava distraído. Quando viu o tronco grosso na direção de sua cabeça, já era tarde demais. Não deu tempo de se esquivar. A pancada na cabeça foi tão forte que ele caiu, desmaiado, o corpo inerte jogado na direção dos trilhos. Teve o braço esquerdo cortado pelo trem. “Lembro só que deu um branco”.

Menino danado

Desde pequeno Gabriel dava trabalho. “Ele não queria saber de estudar, tinha problemas com as professoras porque respondia, brigava com os outros colegas, tinha notas baixas, esse menino era danado”, conta a mãe, Maria José Silva, 53.



Ali pelos sete anos Gabriel já atravessava os trilhos e fazia amizade com os meninos da favela. O grupo de amigos cresceu aprendendo a brincadeira mais divertida do bairro: pegar carona nos vagões da composição. A regra do jogo era aparentemente simples: esperar o trem se aproximar, correr e se pendurar em uma escada na lateral do vagão. “Bigão”, apelido dado a Gabriel por ter o umbigo grande, aprendeu rápido e em pouco tempo era um dos caroneiros mais habilidosos.

Mas ele queria mais emoção, e pegar carona durante o dia não o satisfazia. O desafio passou a ser encarar a luz da locomotiva no escuro da noite. O que Gabriel não esperava é que o tio, Claudio Antônio Silva, 46, estaria por perto logo na primeira tentativa. “Vi um vulto passar. Era o Bigão, tentando pegar carona. Briguei, dei-lhe uns tapas e mandei o garoto de volta para casa. Quando falei para a mãe dele, ele já estava dormindo”, lembra.

Apesar da repreensão dura da mãe, Gabriel não parou com a brincadeira. Uma semana depois, aconteceu o que todos mais temiam. Foi muito rápido. O menino mal viu, não lembra muitos detalhes. Para ele, a memória do acidente ficou no trilho. Quando tenta lembrar a cena a imagem que vem a sua cabeça é sempre a mesma: ele deitado em uma cama, com o braço enfaixado e o apito do trem sendo magicamente substituído pelo silêncio de um hospital.

“Gabriel é abençoado”

O desastre deixou marcas profundas não apenas na pele morena de Gabriel, mas nas vidas de todos a sua volta. Os tios, Verônica e Claudio lembram-se de cada detalhe. A tia, que fazia aniversário no dia do acidente, escutava uma telemensagem de felicitação, quando ouviu um grito vindo do lado de fora: “Gabriel, Gabriel!”. Ela desligou o telefone e correu com o marido para ver o que havia acontecido. O casal deparou-se com a cena chocante de um rapaz trazendo nos braços o sobrinho desmaiado. Ao lado, um outro garoto segurava o braço de Gabriel. O desespero tomou conta da família e das pessoas na rua. Com a demora da ambulância, os tios pediram carona para a guarda portuária, que escoltava o vagão. Verônica lembra que Gabriel foi colocado no porta-malas de um Fiat Uno azul marinho, enquanto um dos guardas levava o braço. O menino foi levado para o pronto-socorro mais próximo, a sete minutos da casa da família. Lá, colocaram o braço dentro de um isopor com gelo e removeram Gabriel para o Hospital Santo Amaro, em Guarujá.

Na mesma hora, sem saber de nada, Maria, a mãe, caprichava na varrição da calçada do supermercado. “Vi o resgate passar e deu um negócio no meu peito, foi uma sensação muito ruim. Mas continuei trabalhando”, conta ela. Dali a meia hora, seu irmão Claudio chegou com a notícia. Maria saiu do trabalho imediatamente e, no caminho de volta para casa, foi parada por um vizinho falando que o filho já estava morto. Ela entrou em desespero. Foi direto para o Hospital Santo Amaro. Chegando lá, a cena era de filme de terror. O menino estava todo enfaixado, com o olho roxo e o corpo coberto de sangue. Tinha perdido a consciência.

“Gabriel é um menino abençoado”, dizia a mãe. Parecia ser mesmo. Enquanto um médico explicava que o hospital não tinha recursos para atender seu filho, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) visitavam o local e tiveram a ideia de transferi-lo para o Hospital das Clínicas para tentar implantar o braço. Gabriel seguiu de ambulância até Cubatão e lá foi colocado em um helicóptero para ir direto ao hospital, em São Paulo.

“Você não tem mais o braço”

Gabriel Cristiano chegou ao Hospital das Clínicas perto da morte. Tinha perdido muito sangue. Passou por uma cirurgia de 12 horas para a implantação do braço. Depois do procedimento, os médicos avisaram que esperariam 72 horas para ter certeza de que o implante tinha dado certo.

Não deu. Dois dias depois, ele entrou novamente no centro cirúrgico, dessa vez para amputar o membro. Agora sim, o quadro de Gabriel era estável, mas trazia marcas que ficariam para sempre. Cicatrizes, uma em sua bochecha direita e outra, a maior delas, nascendo no ombro esquerdo e seguindo até metade de suas costas. Era hora de a mãe explicar o que havia acontecido, para ela a pior parte. “O médico falou que ele ia continuar sentindo o braço e que eu ia ter que contar que ele não tinha mais. Foi muito difícil falar: filho você não tem mais o braço, você está sentindo, mas não tem mais ele”.

Um mês depois do acidente, Gabriel estava de volta à casa. O acidente não o parou. Sua mãe diz que ele ficou ainda mais danado. Continuava com notas baixas, jogava bola na rua, ia para as praias do Guarujá sozinho e ainda andava com “pessoas erradas”.

Com 11 anos fumava cigarros e tomava bebida alcoólica. Tinha o hábito de se reunir com os amigos em “festas” na rua. Em uma delas, a última que frequentou, viu meninos fumando maconha. Nesse momento, Bigão percebeu que devia se afastar para não seguir o mesmo caminho. E também porque naqueles tempos, um outro menino, também chamado Gabriel, perdeu as duas pernas em um acidente no mesmo local da linha férrea e disse a ele que havia conhecido um lugar que daria uma guinada na história dele.

Um novo começo




“Naquele tempo a gente pegava carona no ônibus. Esperavamos o motorista se distrair pra entrar pela porta de trás. Foi assim que eu fui para o Guarujá”, conta Bigão.

Ele foi atrás do “Pirata”, Alcino Neto, 46, um dos destaques do surfe adaptado no Brasil e dono da escola “Pirata Surf”. Naquele dia, era Maria Gabriela Carreiro, 34, que estava no balcão. “O Gabriel chegou na escola e não falava nada. Quando perguntei se ele queria pegar onda ele só fez sim com a cabeça. Mandei ele pegar um bodyboard e ir pra água brincar. Foi o primeiro contato que eu tive com ele. Achei que foi uma maneira mais tranquila para estabelecer uma conexão”, explica. 

Gabriel passou a frequentar a escola de surfe, onde aprendeu a teoria e a prática do esporte. Na praia das Pitangueiras viveu um dos momentos mais felizes da sua vida – sua primeira onda em pé. “Nossa, foi ‘da hora’ aquele dia! Não tive medo porque eu já nadava na maré, era “marezeiro” (risos). Subi na prancha e o Pirata ficou amarradão!”.

Um ano depois, Maria Gabriela – Gabi - que trabalhava como psicóloga esportiva da equipe de natação do Vila Souza Atlético Clube, no Guarujá, teve a ideia de levá-lo para a piscina para complementar o treinamento de surfe, mas sabia que ele não teria como pagar pelas aulas. 

“A história é até engraçada porque o diretor do clube logo perguntou: ‘como você quer que eu dê uma bolsa para um rapaz que não sabe nadar e não tem um braço? ’. Mas no final deu certo, e Gabriel começou a treinar na piscina do Vila Souza”, relembra, em meio a gargalhadas, Ricardo Santana Leite, 32, técnico da equipe.

Logo que começou, Bigão foi colocado na equipe de base - treinada pela técnica Priscila Leite, 27, irmã de Ricardo. Essa primeira fase foi de aperfeiçoamento e aprendizagem. Gabriel custou a se socializar. Tinha vergonha da cicatriz e do fato de não pagar para nadar. Mas isso foi melhorando através da vivência esportiva. Depois de um tempo, no início de 2013, passou para a equipe de treino pesado.




Ricardo logo percebeu que Gabriel tinha muita força de vontade, muita garra. Mas os obstáculos na vida do garoto ainda não haviam acabado. A família queria que ele trabalhasse para “colocar dinheiro em casa”. 

Gabi e Pirata foram até a casa dele para convencer sua família que o esporte também traria a ajuda financeira que eles precisavam. Foi nessa visita que ambos perceberam a realidade difícil de Gabriel. 

A mãe confessou que naquele tempo não dava tanta atenção aos filhos, o que mudou depois do acidente. O pai ficou preso por 11 anos. O menino não tinha chuveiro em casa, morava -e ainda mora- em um bairro perigoso, de alto risco social e muita criminalidade. Tudo isso explicava porque ele era tão calado. Mas depois de muita conversa com a família, eles concordaram em dar uma chance para que Gabriel desenvolvesse seu talento no esporte.

A evolução foi meteórica. Convocado em 2013 para representar o Brasil nos Jogos Parapan-americanos Juvenis, em Buenos Aires, na Argentina, Bigão trouxe três medalhas. Foi premiado em diversas competições, inclusive no Circuito Caixa Loterias de Atletismo e Natação - considerada a competição mais importante do País na modalidade. Gabriel também é dono do recorde brasileiro nas provas dos 100 metros borboleta e nos 50 metros nado livre.



Os bons resultados também são fruto do apoio que recebeu de diversas pessoas que conheceu na natação. É auxiliado pela Associação Paradesportiva da Baixada Santista (APBS) e participa do programa Bolsa Atleta da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer da Prefeitura de Guarujá. 

O nadador é acompanhado pelo fisioterapeuta Marco Antônio Ferreira Alves, classificador internacional do Comitê Paralímpico Brasileiro. Recebe cesta básica de uma voluntária do clube, além de ajuda do próprio Vila Souza e também de uma padaria próxima, onde almoça todos os dias de graça.

No primeiro dia de almoço na “padoca”, na companhia da psicóloga Gabi e do Pirata ele confessou que comia arroz e ovo todos os dias porque não sabia comer outra coisa. “Ele não sabia cortar carne e frango. Foi o Pirata quem ensinou. Esse foi um dia que me tocou muito, ele chorou, nós choramos. Para mim essa foi uma das experiências mais tocantes que tive na psicologia”, conta Maria Gabriela emocionada.

Como balões


Gabriel ainda mora na mesma “quebrada”, mas virou referência e uma inspiração para as crianças que até hoje se aventuram na perigosa linha férrea. Tem o apoio de toda a família, inclusive do pai. Maria, a mãe, disse que “sempre soube que o filho seria uma benção”. Em meio a muitas lágrimas, ela mal conseguia completar frases.

Gabriel nada na categoria S8. A letra “S” representa provas de estilo livre, costas e borboleta e o número 8 indica que ele é um atleta com deficiência física. Números de 1 a 10 correspondem a atletas com deficiências físicas. De 11 a 13, atletas com deficiências visuais. E 14 são os atletas com deficiências intelectuais. 

Aos 21 anos tem os pés no chão e acredita que se não conseguir participar da Paralimpíada do Rio, a Tóquio em 2020 não lhe escapa. “Ele se dedica muito à natação. Treina todos os dias, faça sol ou chuva. O Biel é um exemplo para o clube inteiro e merece muito esse lugar no pódio. Acredito no potencial dele”, diz a primeira técnica, Priscila Leite.

Os tios, Veronica e Cláudio, nem precisaram falar do orgulho que têm do sobrinho. Durante a visita da equipe de reportagem, eles apontaram para um suporte na parede da sala, repleto de medalhas. “Hoje o Gabriel é uma pessoa super dócil. Graças a Deus conseguimos resgatar uma coisa super difícil no ser humano que é a doçura”, disse Pirata.

A carreira do nadador só está começando e tem tudo para dar certo. Isso porque é um menino de muita “garra”. Treina religiosamente cerca de duas horas e meia, de terça a sábado, e faz a “dobra” três vezes na semana, quando treina duas vezes por dia. Além disso, faz atividade complementar duas vezes por semana com o fisioterapeuta Marco Antônio. “Eu costumo dizer que pessoas como o Gabriel são como balões, elas levam a gente para cima. Tenho um imenso orgulho de trabalhar com ele e tenho certeza que ele ensinou mais a mim do que eu a ele”, se emociona.

“Eu tenho o desejo que ele chegue em um pódio paralímpico. Ele merece isso. É um menino muito bom, muito disciplinado, correto, amoroso. Fortalece nosso dia acordar e ver que o Gabriel é um exemplo”, completa a psicóloga Maria Gabriela. “Hoje eu diria que ele é o melhor atleta do clube”, finaliza o técnico Ricardo.

Gabriel Cristiano segue sorrindo e brincando. Sabe que o acidente mudou seu destino e o fez trilhar um novo caminho. Foi o esporte que o tirou de uma vida sem perspectivas e trouxe amigos, conquistas e um sonho. Um sonho dourado que ele quer pendurar no pescoço: uma medalha de ouro nas Paralimpíadas do Rio.






Ocupa mais, que tá pouco!


Festas saem das páginas do facebook para tomar conta de praças, ruas, e até cantinhos esquecidos. Música boa, curtição e catuaba gelada sempre marcam presença

Quando o relógio marcou 18h00 de sábado, 27 de fevereiro, uma notificação no Facebook avisou que a noite seria de pura festa. Não era feriado, nem mesmo a data remetia a algum acontecimento especial para os santistas ou para os amantes de boa música. O convite virtual para a “festa de ocupação” não explicava o que era uma “festa de ocupação”, mas bastou uma navegada no Google para saber sobre esse tipo de evento: não é preciso motivação especial para acontecer, trata-se apenas de uma celebração à arte, ao bom convívio entre pessoas e um pretexto para reunir quem gosta de tudo isso no espaço público. Um pouco de suspense e improviso ajudam a aumentar o charme dessas festas, o que explica o fato de, em alguns casos, o convite chegar pelas redes sociais poucas horas antes de soarem os primeiros batuques.

O rala coxa daquele sábado chamava-se Coco de Garrafada. Não é o único baile com a ideia de ocupação urbana na noite santista, mas é um dos poucos que têm o “coco” como anfitrião. Coco é o nome do gênero musical que mistura influências da umbanda e do candomblé, mas a galera costuma chamar de “som de preto” ou “som de terreiro”. “Segura as telhas que eu vou fazer a terra tremer! Meu coco é forte e tem azeite de dendê”, bradava a mensagem estampada no convite do Facebook. Horário marcado: 23 horas. Local: Praça dos Andradas, em frente à cadeia velha. O convite continua dando o tom da festança: “vai ter pisada forte, dança e daquelas que não se pode ficar parado; vai ter raiz, ciência, calor humano e tudo de graça, na praça, do povo, para o povo.”

Só nos dois últimos meses três festas com esse conceito povoaram o centro histórico santista. Além da Coco de Garrafada, teve também a ABSM e a famosa Jambu. No geral, a proposta varia de uma para outra. A primeira traz o calor do nordeste brasileiro, saias rodadas, chinelos arrastados, música ao vivo e uma bandeira contra o preconceito racial. Já a ABSM abusa de cor, luz, e faz da música eletrônica trilha sonora de um ambiente repleto de alto astral. Já a mais conhecida, a Jambu, não só valoriza o cenário alternativo da MPB, como incentiva as mais diversas intervenções artísticas e arquitetônicas no espaço público. Sua última edição, no sábado, 19 de março, foi um grande festival de 18 horas que proporcionou suspense ao manter em segredo o local do evento até poucas horas antes da festança. O que é comum nas três festas: todas lotam.

A NAU PEDE PASSAGEM
Uma hora antes do horário combinado a equipe da revista Viral já estava no local combinado para reportar o agito da Coco de Garrafada. Nenhuma pinta de festa na praça sonolenta, com poucos moradores de rua, alguns taxistas e muitas latas repletas de lixo. Nenhuma caixa de som, nenhuma latinha de cerveja.

Quem ainda não está acostumado à dinâmica desse tipo de reunião poderia até pensar que o role tinha miado. Conforme os convidados foram chegando, a praça vazia se encheu de cor. Do nada surgiram computadores, mesas cheias de botões coloridos, equipamentos de som e isopores gigantes para onde eram arremessadas dúzias de garrafas de Catuaba Selvagem. A “nau” da ferveção estava pronta para zarpar. O batuque comandado pelos “tripulantes” Piratas do Maxixe, responsáveis pela festança, cresceu a ponto de chamar a atenção até de quem passava nas ruas laterais. Chegam as meninas a bordo de suas longas saias e os meninos de largas bermudas. Chinelos de dedos estalam no chão, marcando o ritmo da melodia. Não demorou muito para que o lugar se transformasse num baile com calorosos dançarinos.

A Garrafada, assim como tantas outras festas de ocupação urbana, se propõe a promover um grande encontro a céu aberto com pessoas de várias tribos, ocupando lugares inusitados do espaço público. Trata-se de uma nova forma de ocupação pública e expressão artística, social e, muitas vezes, política. Encontros de pessoas conhecidas ou não, que propõem uma releitura dos lugares que por vezes cruzamos e não percebemos ou sequer damos importância.



No meio da balada, a estudante de 18 anos, Paula Granado, que arriscava discretos passos de dança durante a entrevista, disse que gostava daquele som e já havia comparecido em muitas outras festas de ocupação em Santos. Ela usava uma roupa bem leve, e que estava em harmonia com o tom do evento. “Não tem conflito, a maioria das pessoas se conhece e todos estão aqui apenas para curtir um ambiente diferente”.

Na alta madrugada, contar o número exato de pessoas dançando foi uma tarefa difícil. Elas chegavam de todas as partes e se entregavam de corpo e alma à tal música de preto. Alguns mostravam outras habilidades artísticas, como malabarismo, danças típicas e até capoeira. A estudante de assistência social, Kidauane Regina Alves, de 20 anos, por exemplo, sem perder o ritmo, jogava a arte marcial brasileira com amigos nos acordes da banda Coco das Águas Doces, que veio de Jundiaí para tocar no ponto máximo da ferveção, por volta das 03h00 da madrugada.

“Trata-se de um grande resgate. Trazer pessoas diferentes, para lugares diferentes, e fazer algo diferente. Tudo, claro, com peso cultural muito forte”, definiu a estudante. A Jovem destaca que ocupar espaços como foi feito com a Garrafada reforça a necessidade da população de entender a cidade de forma mais harmônica. Nesta festa o batuque é um belo estímulo para a empatia criada entre esse público fiel, de dançarinos amadores ou não. Os amigos Pedro Henrique Ferreira e Lucas Nascimento, 29 e 27 anos, são de Jundiaí e quando souberam da festa Coco de Garrafada por meio do evento no Facebook, arrumaram suas trouxas e desceram a serra. A namorada de Pedro é percursionista da banda Coco das Águas Doces, mas, para ambos, o sentimento de “fazer parte” daquilo os moveu até o centro de Santos.

Pedro Henrique defende a ideia de ocupar espaços paralelos à avenida da Praia. “A rua é pública e o povo precisa se integrar. Tem que ocupar mais, que tá pouco”. Já Lucas reforça que a música nesse tipo de reunião dá maior visibilidade a grupos e suas causas sociais. Em certo momento, uma das moças que dançava no meio da Praça, quando rodava sua longa saia branca e arrumava a postura para mostrar seu leque, fazia da sua pele morena e cabelos cacheados uma bela representação de diversas culturas.

A festa passou das 05h00. A banda já tinha retirado seus instrumentos e os equipamentos de som estavam sendo guardados também. A galera continuou se espalhando pela praça, mas dessa vez para limpar o espaço e, assim, ir embora. O domingo na Praça dos Andradas amanheceu como de costume durante o dia: muita movimentação de taxistas e pessoas que transitam entre a Rodoviária e o Terminal da viação de santos. Fora isso os mendigos continuaram ali, as latas de lixo cheias também. Não sobrou uma garrafa de Catuaba. Nenhum vestígio. Ninguém pra dizer que a festa foi “top”.

História em concreto, vidro e tijolo




Prédios da orla santista contam capítulos inteiros da história da cidade.


Os prédios da orla da praia fazem parte da identidade cultural da cidade, e representam fases distintas da arquitetura e da história social e econômica de Santos. É como se formassem uma “fachada” da cidade, delineada por um mosaico de estilos, tons e tamanhos.

A orla é uma das marcas mais expressivas de Santos, assim como o porto, os canais e os jardins. E, historicamente, um grande atrativo para construtoras e moradores. “A orla possui um acervo importante de obras. Porém, predomina uma arquitetura comercial”, analisa Luiz Antonio de Paula Nunes, professor de História e Teoria de Arquitetura e Urbanismo da UNISANTA.

Hoje os 195 prédios residenciais postados de frente para o mar contam histórias de diferentes períodos do desenvolvimento da cidade. Palma de Mallorca, Copacabana, Indaiá, Astros, Paulistânia e Jardim do Atlântico são alguns dos nomes que representam a pluralidade de estilos, de diferentes escolas. Alguns têm tanta relevância cultural que são tombados pelo Condepasa (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos), caso do Parque Verde Mar, do edifício Enseada, o Astro, marco modernista, e os Palacetes São Paulo e Olímpia.

O contraponto é representado por quatro empreendimentos em construção ou quase prontos para serem inaugurados, que trazem o conceito dos modernos arranha-céus, com amplas áreas envidraçadas e muitas sacadas praticamente debruçadas sobre os jardins a orla. Recentemente um supermercado que era localizado próximo ao canal 2 foi demolido para dar lugar a uma dessas construções, com previsão para vertiginosos 37 andares. Mesmo com a crise financeira a faixa litorânea permanece na mira das empreiteiras, da população local e dos que sonham com uma moradia de veraneio.

Quem olha do mar para a orla pode identificar onde estão os chamados “clássicos”, aqueles edifícios muito emblemáticos de um tempo ou de um modismo, localizados principalmente entre os bairros do Boqueirão e José Menino. Um deles é o pioneiro Palacete Olímpia, de 1928. Se um dia o Palacete foi símbolo de imponência, hoje seus cinco andares mal dariam para abrigar as enormes garagens construídas para os arranha-céus dos anos 2000. “Os prédios novos e altos são fruto de um processo de valorização imobiliária, mas não descaracterizam a identidade da cidade, apenas reforçam a particularidade sócioespacial desse tipo de ocupação”, analisa o arquiteto e professor Luiz Antonio de Paula Nunes.

Símbolos de uma era

Construções de frente para o mar nem sempre foram símbolo de status. Até o começo do século XX, chique era morar próximo do cento histórico e no bairro do Boqueirão. Com a valorização do café a classe emergente, formada pelos exportadores e produtores, começou a ambicionar locações mais próximas do mar. Não era só um desejo dos santistas, mas principalmente dos moradores da pujante capital do estado e do interior desenvolvido, que buscavam em Santos uma segunda residência e um local para lazer durante os meses de veraneio.

Com a inauguração da via Anchieta em 1947, e a rápida industrialização do ABC, as cidades da região viram um número ainda maior de visitantes surgir a cada final de semana ou mesmo durante a semana nos meses de calor. Era a nova classe média endinheirada, em busca de um lugar ao sol. De frente para o mar.

O ritmo das construções e a valorização da orla como lugar nobre para a moradia ganharam novo impulso com a inauguração da Via dos Imigrantes, em 1974.


Foi para esses visitantes que um dos nomes mais ilustres da história arquitetônica da cidade de Santos teve a ideia de construir um prédio de frente para o mar. Em meio à roda de amigos que tinham um encontro semanal no restaurante do Mappin, em São Paulo, o arquiteto João Artacho Jurado foi instigado a conceber prédios de apartamentos de veraneio no litoral. Apaixonado pelo mar, Jurado, acatou o pedido dos amigos e quis trazer para a cidade características que consagravam suas construções na capital. É dele o projeto do edifício Parque Verde Mar, localizado no Boqueirão, um empreendimento que se destaca pela cor, beleza e as curvas que buscavam harmonia com a paisagem da praia.

O professor de Arquitetura e autor de um livro sobre a obra de Jurado, Ruy Eduardo Debs, explica que, apesar das citações modernistas, estilo dominante à época, Jurado criava fachadas elaboradas, com recortes nas vigas estruturais, pastilhas arredondadas e detalhes em madeira nas jardineiras. “O estilo modernista não pressupõe adereços, enfeites. E Jurado veio na contramão e marcou seu estilo com diversos ornamentos, tornando-se a negação do estilo que era adotado”, completa.

Mas os prédios da orla vão muito além do Parque Verde Mar e do Enseada, este, localizado entre os canais 6 e 7. Antes do colorido exuberante de Jurado, o Palacete Olímpia, na metade do caminho entre os canais 1 e 2, já apresentava um conceito moderno para a época. Foi a primeira edificação pluri-residencial da orla santista. Isso em 1928. O dono do terreno construiu o prédio e apenas alugava os apartamentos para quem queria morar por lá, mesmo conceito do Palacete São Paulo, de 1929, até hoje instalado no canal 3 com a praia.

No José Menino, equina com a rua Santa Catarina, o Edifício Biarritz, de 1942, com seus 10 andares foi o primeiro prédio da cidade no esquema que conhecemos até hoje, em que as pessoas compram o apartamento ainda na planta.

Essas construções históricas se misturam aos novos e modernos condomínios, que ultrapassam fácil os 35 andares. Próximo ao Biarritz, o condomínio Enseada das Orquídeas, construído em 2011 no terreno do antigo Clube Caiçara, conta com mordomias típicas século XXI, como uma piscina de borda infinita e varandas gourmetizadas. Na onda dos recém-lançados, um dos mais novos é o Prime Plaza, no Gonzaga, que apresenta uma cobertura triplex, com vaga para até sete carros, com espaço de lazer e sala de cinema particular para 30 pessoas.

O boom mais recente da construção civil, que durou até 2015 foi motivado pelo sonho de prosperidade criado a partir da descoberta do pré-sal, em 2007. Segundo o jornalista e escritor, Sergio Willians, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras, as pessoas hoje trocam suas residências menores para morar de frente para o mar. “A vista sempre atraiu, inclusive com as construções de prédios maiores atrás para que o morador das ruas próximas à orla pudessem também contemplar a vista”, complementa o historiador.

Prédios tortos


Em toda a orla é possível perceber os tão famosos prédios tortos, marca registrada da paisagem santista. Conhecidos no País e no mundo, os prédios fora de prumo localizados em sua maioria entre os canais 3 e 6 são atração para moradores e turistas. Entre os mais conhecidos estão os edifícios Núncio Malzoni, ao lado da Pinacoteca Benedito Calixto, próximo ao canal 4, e a menos de 100 metros, o Excelsior, conhecido como “Torto”, nome do bar instalado quase abaixo do nível da avenida, que funciona ali há mais 30 anos.

Prédio "Torto", como é conhecido, tem quase metade da inclinação da Torre de Pisa

O bloco B do edifício Núncio Malzoni, teve a sorte de conseguir voltar ao prumo, graças ao poder aquisitivo de seus moradores, que se cotizaram e assumiram os custos de uma grande obra. A construção dos anos 1970 chegou a ter 1,7 metros de inclinação, porém, em 2011, numa operação lenta de suspensão por macacos hidráulicos, a construção foi colocada em equilíbrio novamente.
Já o edifício Excelsior, talvez o prédio mais icônico da cidade, exibe com certo orgulho seus de 1,80 metros de desaprumo – quase metade da inclinação da Torre de Pisa, que é a construção mais famosa do mundo por seu desnível de aproximadamente quatro metros. Segundo a Prefeitura de Santos, o “Torto”, tem a maior inclinação da cidade. Em 1977, o prédio chegou a ficar interditado por mais de um ano.

Segundo o professor de Engenharia Civil, Adilson Luiz Gonçalves, fundações feitas de forma irregular são o principal motivo para o fenômeno conhecido como “recalque”, pois, as sapatas (nome dado ao tipo de fundação que sustenta o prédio, que tem uma forma parecida a de um sapato) estão na primeira camada de areia e não houve o estudo necessário no tipo correto de fundação para a construção de um edifício tão alto. “As fundação foi calculada para um prédio de nove andares, mas construíram um de 18, 19 andares. Os prédios vizinhos auxiliaram nesses recalques e tiveram o mesmo problema.”, explica o engenheiro.

Segundo Gonçalves, a areia é um ótimo lugar para fundações, porém o solo santista, após uma pequena camada de areia de 6 a 12 metros, tem uma camada de argila marinha de 20 a 40 metros, seguida de mais uma camada de areia, e por último uma camada dura (formada por rochas) que varia de 40 a 50 metros. “A argila parece uma esponja, se você coloca muito peso, ela tende a ir para os lados. Pois, a água contida nela sai, causando um afundamento e um acomodamento do terreno.”, comenta.

Tá tudo dominado


As mulheres estão dominando cada vez mais o cenário empreendedor no mundo. É um negócio que está crescendo cada vez mais e na Baixda Santista não é diferente

No século XX, o empreendedorismo feminino teve como percussoras nomes como coco chanel e amelia earthart. Atualmente, o cenário está mudando, e as mulheres têm se tornado mais prevalentes no ramo empreendedor.

Segundo dados do sebrae (serviço brasileiro de apoio às micro e pequenas empresas) de santos, 32% das micro e pequenas empresas brasileiras são lideradas por mulheres. Esse número equivale a quase oito milhões de empreendedoras no país.

Na baixada santista, as mulheres dominam o mercado: 52% das microempresas são lideradas por elas. Por isso, convidamos quatro mulheres de diferentes negócios, em diferentes estágios de desenvolvimento, para abrir a porta de seus estabelecimentos e nos contar suas trajetórias.



Conhecida como mari marques e dona de um estúdio que leva seu nome, mariângela marques, 36 anos, é professora de pilates. Formada em educação física pela fefis, ela conta que sempre se interessou mais pela saúde do que pela área fitness, mas nunca havia encontrado algo que realmente a representasse. Foi quando começou a fazer cursos especializados, estágio na área e se encontrou no pilates. “Depois de uma crise financeira resolvi abrir meu negócio. Comecei com um lugar pequeno e alugado e foi acontecendo”, conta.

Hoje, com um ano na atividade, mari marques tem 60 alunos e se diz satisfeita com o número pelo pouco tempo do empreendimento. Mas ela não vai parar por aí, deseja ampliar ainda mais seu espaço e aumentar a quantidade de alunos.

Para montar seu estúdio, mari decidiu se qualificar no empreendedorismo e fez cursos no sebrae, que são gratuitos e dão certificado. Ela também está se aperfeiçoando no pilates e  cursa a segunda pós-graduação na área.

Com a crise batendo à porta, a empreendedora tenta inovar para que seu negócio não pare de crescer. “é preciso buscar alternativas, então fiz convênios com duas empresas, cujos funcionários têm direito a desconto. Também coloco anúncio em jornais locais, faço propaganda na internet, promoções, pacotes e assim por diante. Vou testando” conta.



Adriana vieira tinha 20 anos quando conheceu a yoga.   Estava na faculdade de jornalismo, fez uma entrevista sobre o assunto e, no momento em que entrou na aula de yoga, se apaixonou. Após muito estudo, se tornou doula e resolveu montar seu espaço e fazer da orientação e assistência a gestantes o seu ganha-pão.

Há seis anos fundou o namaskar yoga, um centro dedicado a gestantes e casais. Para esse trabalho, conta com a ajuda de outras doulas e fisioterapeutas. Antes de criar seu espaço e ser uma profissional conhecida na região, adriana tinha um grande interesse pela yoga e resolveu estudar sua cultura e a associação dessa prática com temas como gravidez e parto. 

Viajou para índia, holanda, inglaterra, rodou o mundo em busca de conhecimento. “nunca consegui ficar parada, sempre tive que estudar ”, conta adriana.

Em 2006 começou a trabalhar como doula. “é uma profissional que, acompanhada de um médico ou de uma parteira, prepara os casais para terem uma gestação saudável e para que eles tenham liberdade nas escolhas” explica adriana.

Atualmente, os preços cobrados pelas profissionais variam dependendo do tipo de aconselhamento à gestante, e também da experiência e formação que a profissional tem. Para cobrar, elas combinam com o casal o tempo que eles vão precisar de sua assistência. O pacote custa, em média, entre R$ 800 a R$1500 por gestação.



um ano larissa cavalcante criou a papelaria artesanal skets. É uma loja online que vende variados cadernos artesanais. O site para comprar os produtos está em construção, mas isso não é problema, pois a loja funciona no instagram com o usuário @lojaskets. Todas as encomendas são feitas por email ou whatsapp.
  

“O instagram me ajudou muito. Por causa dele já consegui clientes no rio e em minas, lugares que eu nunca imaginaria vender”. 

Os preços variam de acordo com o modelo. Os personalizados que levam um desenho feito por ela na capa, vão de r$ 70 a r$ 100. É um trabalho bem personalizado, então os preços variam se são estampados ou lisos, maiores ou menores e qual o tipo de papel usado.

Todos os produtos da loja têm o design pensado por ela e são feitos artesanalmente. Ela passa o dia costurando, desenhando e estudando, em busca de inspiração. “eu aprendo muito, sempre busco vídeos na internet para aperfeiçoar meu trabalho”.

Hoje, seu maior sustento é a skets, mas ela também trabalha como freelancer, fazendo artes para sites. No começo, para se organizar, ela ia atrás de plataformas na internet para conseguir administrar seu dinheiro. “essa parte burocrática é bem complicada, mas com o tempo você vai aprendendo”.

Larissa já tem vários planos para o futuro. Tem ideias de novos produtos e novos projetos, sempre envolvendo sua grande paixão e talento: a arte.      

Sua maior dica para as moças que querem ter seu próprio negócio é ter disciplina e se inspirar muito. “use todas as redes sociais que você puder, pesquise. Referência é ótimo ,pois para você inovar tem que estar ciente do que as pessoas já fizeram. Tem que correr atrás”.



Ludmilla rossi, antes  mesmo dos 20 anos de idade, já tinha aberto a mkt virtual, uma empresa que administra as redes sociais de grandes nomes como pampili, rei do mate, kascão, instituto natura, entre outros. Com uma equipe de 50 pessoas, ludmilla comanda todo o setor criativo da empresa.  “quando fundei a mkt virtual, foi tudo muito rápido, justamente na velocidade do crescimento da internet”, conta a empresária.

Na época em que ela resolveu se aventurar, a internet havia acabado de chegar ao brasil. Buscar clientes e se posicionar no mercado com pouco dinheiro e trabalhar num ritmo incessante, eram as principais dificuldades para a jovem empresária. 

Ludmilla acredita que hoje a consciência das pessoas é maior em relação aos negócios criados e geridos por mulheres. Porém, ela já ouviu coisas absurdas ao longo de sua carreira. “em uma entrevista de emprego onde eu era a entrevistadora, o candidato ficou abismado ao saber que, além de empreendedora, eu era designer. E soltou a frase: achei legal saber que uma mulher faz isso”.

Para inovar e manter tudo funcionando apesar da crise econômica, ludmilla diz que reinvenção e aumento de eficiência são o segredo. “o primeiro passo não é demitir, mas avaliar, treinar os funcionários para uma nova atitude”, comenta a designer. Segundo ela, você tem que olhar para as dificuldades e saber se reinventar.

Estudar também faz parte do processo para elevar um empreendimento, segundo a empresária. “por não ser formada, sempre busquei muitos cursos e com a maior amplitude possível”, explica ela.

Já para quem deseja abrir sua própria empresa, ludmilla aconselha fugir da linha de mediocridade e se especializar. Ser tolerante é outro ponto primordial. “muitas pessoas podem ensinar algo a você que irá mudar a sua vida. Aproveite a teoria dos cinco – você se torna uma mistura das cinco pessoas com as quais mais convive”, sugere.

Tenha coragem para formar sua opinião, receita a empresária, que ainda finaliza com uma frase de efeito de coco chanel: “o mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça.” 

O toque que vem da senzala


A necessidade de expressão dos negros criou uma cultura, o Maracatu, que serviu para motivar a vida daqueles que sofriam com a escravidão



Música, dança, tambores, figurinos, alegorias cor e muita alegria. Desde 5 de outubro de 2003 a Baixada Santista tem o seu próprio grupo de maracatu. De origem pernambucana, com mais de 200 anos, o maracatu de baque virado nasceu na cidade do Recife e é uma manifestação de resistência do povo negro que veio da África, para ser brutamente escravizado no Brasil. Com fé nos orixás (que são elementos da natureza), na religião de matriz africana e persistência em manter sua identidade, o negro fez e faz com que esta rica cultura esteja presente em diversas regiões do Brasil

O maracatu é oriundo da coroação dos reis negros no Brasil, instituído nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário no século XVII. No século XIX, adotou o nome de maracatu, que surgiu de maneira pejorativa.

Alfaias, agbês, gonguês, caixas, ilus, atabaques e mineiros, instrumentos tradicionais dessa manifestação cultural afro-brasileira, chamam a atenção daqueles que passam pelo Centro histórico de Santos. O som é potente e enérgico. E as loas, entoadas com movimentos corporais peculiares, despertam quem escuta o som dos instrumentos da rua.

O Quiloa

A história do Maracatu Quiloa começa em outubro de 2003, quando um grupo de amigos de Santos participou de um encontro de maracatu no Sesc Itaquera, onde tiveram o primeiro contato com os tambores.



O evento aconteceu em um domingo em São Paulo, e já na segunda-feira, por coincidência, os amigos encontraram em Santos um tambor à venda, pois o dono o comprou por engano pensando que era um instrumento de percussão de escola de samba. Logo após, deram início aos ensaios do grupo, que seguiu por meses ainda sem nome.
Um dos integrantes, que na época assistia na TV Manchete a novela Xica da Silva, gostou do nome de um dos personagens da trama, que se chamava Quiloa. Foi a partir daí que surgiu a ideia de dar esse nome para o grupo. Mais tarde, descobriram que a palavra ‘loa’ no vocabulário do maracatu significa o canto entoado.

Com o tempo o Quiloa construiu uma relação de respeito às tradições das culturas da Nação do Maracatu Porto Rico e Nação do Maracatu Encanto do Pina, ambas de Recife, Pernambuco. Nações são grupos que mantém a manifestação ligada diretamente aos terreiros de candomblé, por mais de séculos.

A indumentária, os passos de dança e o impressionante ritmo da percussão não passam despercebidos. “O maracatu de baque virado é tradicionalmente uma manifestação que ocorre na rua”, explica Felipe Romano, um dos fundadores e coordenador do Quiloa. Hoje, após a consolidação do primeiro grupo de maracatu de Santos, Romano não é somente um aprendiz: é um dos batuqueiros da tradicional Nação Porto Rico de Recife. O grupo reúne atualmente cerca de 130 membros em seu principal evento, o cortejo, que ocorre anualmente 15 dias antes do Carnaval no Centro histórico de Santos.

Os ensaios acontecem na sede do Quiloa, na rua General Câmara, 99. O cortejo do Quiloa começou em 2006 e vêm se tornando tradição na Baixada recebendo público e participantes do Brasil inteiro. 

Não tem idade e nem classe social, como explica Romano. O grupo reúne todo tipo de pessoa: estudantes, professores , médicos, auxiliares de serviços gerais, jornalistas, assistente sociais, entre outras profissões. A idade dos integrantes também é variada. Se há adultos na formação, crianças são bem-vindas. Este é o caso da Manuela Romano, que acompanha o pai, Felipe Romano, nas oficinas e cortejos . Hoje, aos 9 anos, Manuela toca agbê e participa dos eventos ligados ao maracatu. “Nunca fiz as oficinas, mas aprendi a tocar os instrumentos sozinha”, conta Manu.

Há quem diga que o maracatu é um chamado, uma cultura que transforma vidas. Guilherme Marques Zupo, de 25 anos, que está no Quiloa desde 2012, já conhecia a cultura, pois já tocou em Maringá e em Recife, com a Nação Porto Rico. Neste último local conheceu Felipe Romano. “O interesse pela cultura popular e a religiosidade foi o que me levou ao maracatu. A cultura fortalece as religiões africanas e, por isso, quando soube que viria para Santos, entrei em contato com o Romano e comecei a participar do Quiloa”, afirma.

De acordo com Zupo, o maracatu é uma cultura antiga e a maioria das pessoas se conhece, o que torna a cultura uma grande família. “Costumo dizer que se quero ir para qualquer lugar do Brasil, tenho onde ficar, o maracatu é uma família”, afirma.

Para a estudante de Serviço Social, Hellen Neves, de 23 anos, o principal motivo para que ela chegasse ao encontro também foi o interesse pela história de seus ancestrais. A jovem frequenta o Quiloa Maracatu há dois anos e afirma: ‘’Eu precisava me reconhecer como mulher negra, e encontrei um espaço que conversava com o que eu buscava sobre os ancestrais da minha descendência’’.

Antes de conhecer o maracatu, Hellen conta que já havia tentado tocar diversos instrumentos e que, após o envolvimento com o ritmo marcante dos tambores, ela conseguiu tocar o agbê já no primeiro contato.

O envolvimento com um coletivo de mulheres negras, segundo Hellen, é um dos caminhos que ajudam algumas pessoas a achar sua identidade. ‘’O maracatu vira parte de nossa identidade e passamos a manifestar expressões de cultura e arte em nosso dia a dia. Hoje, por exemplo, estava em uma reunião com algumas colegas da faculdade e as chamei para conhecerem o ritmo. Elas ficaram supercuriosas e talvez venham comigo algum dia’’, acredita.

As oficinas

No total, o Maracatu Quiloa oferece três opções de cursos:

- O maracatu de baque virado – o baque da Nação Porto Rico e Encanto do Pina , aulas às segundas-feiras, às 19 horas;

- Pandeiro e Percussão para educadores, práticas e cantigas para se trabalhar na sala de aula. Encontro às terças-feiras, às 19 horas.

As oficinas terão início em Junho. Informações gerais e valores dos cursos no email oficinas.quiloa@gmail.com ou no whatsapp (13) 9962-1754 ou no endereço Facebook/quiloa


Glossário


Alfaias – Também chamado de bumbos. São tambores graves, de grandes dimensões, feitos de compensado e, em alguns grupos de tronco da macaíba (árvore que se parece com a palmeira). Seus aros são feitos de genipapo e o bojo é trançado por uma corda de sisal. Com frases sincopadas e bem marcadas, as alfaias são responsáveis pelas características principais de cada toque ou baque. Muitas vezes dividem-se em três grupos, de acordo com tamanho ou afinação, tendo cada grupo uma função rítmica diferente.

Agbê – Também conhecido como xequerê, é composto por uma teia de miçangas que envolve uma cabaça. Instrumento que veio dos terreiros para o batuque do maracatu com a função de condução similar ao do ganzá.

Gonguê – Instrumento formado por uma campânula, objeto de ferro em forma de sino, com um cabo que serve de apoio para as mãos. Tem o formato aproximado de um sino de ponta a cabeça ou um agogô de uma só boca. As frases rítmicas do gonguê são geralmente formadas por contratempos e síncopas, permitindo grande liberdade de improviso.

Caixa de guerra – Tambor agudo que produz um som alto e característico. Possui frases rítmicas com grande quantidade de notas, o que dá a este instrumento a possibilidade de coordenar e harmonizar as alfaias. São as caixas de guerra que dão a chamada para a entrada dos outros instrumentos.

Atabaque –
Instrumento primo do tambor ilú, típico de terreiro, tocado com as mãos. Seu fraseado são toques referentes a determinados orixás, a quem o maracatu presta sua homenagem. Nos cortejos, estes ilús são retirados do tripé e são amarrados ao corpo do batuqueiro por uma faixa.

Ilu, Ilú, Ylu ou Elu –
Pode ter mais de uma denominação. É um tipo de tambor afro-brasileiro usualmente utilizado em rituais religiosos, sobretudo na região Nordeste do Brasil. Normalmente tocado com as mãos, é construído geralmente sobre uma base de madeira em forma de cruz, sendo primordialmente afinado através de hastes de ferro.

Ganzá – Também chamado de mineiro. Chocalho cilíndrico responsável pelos registros mais agudos do conjunto. Um dos instrumentos mais versáteis da cultura afro-brasileira. Possui inúmeras possibilidades de sutis variações rítmicas.

O primeiro mandato de um vereador

Nesta reportagem, abordamos sobre o primeiro mandato de vereadores da região. Eles entram na política com o discurso de fazer a diferença, mas conseguem?


A maioria dos vereadores chegam à Câmara motivados por amigos e familiares. “Você é bom! Conhece todo mundo. Vai ser vereador”. E, independentemente dos motivos que fazem um munícipe qualquer querer representar todos os outros de sua cidade, como salário e popularidade, o primeiro mandato é quase sempre um choque de realidade.

Chegando ao final da primeira legislatura, os vereadores Kenny Mendes (DEM) e Evaldo Stanislau (Rede), de Santos; Genivaldo do Açougue (PSD), do Guarujá, e Ricardo Corrêa (PT), de Peruíbe, ouvidos pela reportagem da revista Viral reclamam praticamente das mesmas dificuldades.

Entre as queixas mais comuns está a expectativa de conseguir aprovar aquelas ideias prometidas durante a campanha, de ser reconhecido por bons projetos, e de ter voz ativa no plenário. Uma espécie de herói. Mas, na prática, a burocracia faz com que um simples requerimento vire uma novela.

Já o eleitor, mesmo que às vezes nem lembre em quem votou, relega o edil ao papel secundário de quem pode fazer um favorzinho aqui ou ali. Herói ou mero coadjuvante?

Engenheiro de formação e professor universitário há quase 20 anos, Kenny Mendes (DEM) foi eleito vereador de Santos em 2012, após incentivo de centenas de seus alunos. Em seu primeiro mandato, o canadense naturalizado brasileiro sofreu com o idealismo de quem veio de longe para tentar ser um divisor de águas na política santista.

“Por não ser de Santos e vir de outro país, entrei na Câmara com muitos ideais, sonhos e ambições. Quis retribuir o carinho e recepção que tive no Brasil e na região. Fui incentivado pelos meus alunos, e não me arrependo. Amo o que faço, e acho que consegui tirar várias coisas do papel, mas, na prática, sabemos que a maioria dos trâmites não depende só de boa vontade. A política poderia ser mais dinâmica. O processo entre executivo e legislativo é muito difícil. A burocracia desmotiva. Não vou estar vivo para quando o processo for diferente”, lamenta o professor.

O primeiro projeto apresentado por Kenny após ser eleito, em 2012, e tomar posse, foi o de instalar ares-condicionados nas escolas públicas de Santos. Ele nem imaginava a batalha que teria pela frente. No primeiro ano, os recursos não foram destinados pela Secretaria de Educação e só doze meses depois foram aprovados no orçamento previsto para 2015. Com isso, os equipamentos foram comprados, mas aí veio outro problema: os colégios não comportavam a instalação por causa da fiação elétrica. Obras foram iniciadas, e, atualmente, quase um mandato depois, apenas 8% das salas de aula têm refrigeração.


Preparação para a Legislatura
Durante as campanhas eleitorais, os futuros vereadores são orientados por membros do partido e contratam, em caso de bom aporte do partido, uma equipe multidisciplinar para que vençam nas urnas e cheguem à Câmara preparados. Mas como se preparar? Para o médico Evaldo Stanislau (Rede), eleito vereador de Santos para o primeiro mandato também em 2012, a política – e principalmente a politicagem -, só se aprende na prática.

O legislativo municipal possui limitação constitucional. Mesmo um ótimo projeto para a população depende de trâmites e comissões parlamentares, principalmente se demandar grandes investimentos dos cofres públicos.
“Dentre a expectativa e a realidade (do primeiro mandato), claro que existe um grau de frustração, de não ser exatamente o que esperávamos. Algumas coisas a gente só entende na prática. Entre as principais frustrações está a limitação constitucional da função do vereador, que no campo propositivo é muito cerceado, uma vez que há boas ideias, que podem ser dadas como inconstitucionais e vetadas já nas comissões, principalmente se gerarem despesas. É um aprendizado diário”, desabafa o doutor.

O que faz um vereador?

Além das dificuldades e limitações já apresentadas por Kenny Mendes e Evaldo Stanislau, os primeiros passos na política regional mostram outros dois grandes vilões: a generalização da classe e a falta de conhecimento da função do vereador.

Os vereadores precisam conviver com certos clichês, como “políticos são todos iguais” e “trabalham pouco e ganham muito” e, em compensação, boa parte dos eleitores sequer sabem as competências, atribuiçoes e deveres daqueles que escolheram para representar o município.

De forma teórica, o vereador é responsável pela elaboração, discussão e votação de leis para a municipalidade, propondo benfeitorias, obras e serviços para o bem-estar da população. Também são responsáveis pela fiscalização das ações tomadas pela administração municipal, ou seja, o prefeito.

Já na prática, coleta de lixo, saneamento básico, buraco na rua, falta de policiamento, fila no hospital e preços do mercado - problemas diversos e de responsabilidade de outras esferas da administração pública -, são todos culpa de “mais um político ladrão”. Ou da Dilma?

Givaldo Feitosa, mais conhecido como Givaldo do Açougue, nasceu em Brejo Grande, interior de Sergipe, e mudou-se para o Guarujá ainda criança. Com um açougue em Vicente de Carvalho, conseguiu dar uma melhor situação à sua família. Conhecido na cidade, se tornou vereador em 2012, pelo PSD. O nordestino garante que não se tornou político pelo dinheiro e que se considera uma “exceção”.

“Foi aqui na Baixada Santista que consegui ter o padrão de vida melhor do que na minha cidade, diferentemente do que meus pais tiveram. Mas foi com muito suor e luta que consegui isso e não como vereador. Entrei na política para ajudar a população do Guarujá e não para ganhar mais dinheiro. Mas sei que há uma generalização que todos são corruptos, devido a essa roubalheira que vem acontecendo no país”, defende-se Givaldo.

Givaldo também fala que a expectativa, quando se está de fora da política, é de chegar e fazer tudo – ou quase tudo – que considera importante para a sua cidade. No entanto, na prática, vê que não é assim.

“Quando você está fora da política, você fica na expectativa de que você vai conseguir fazer tudo por sua vontade, sua força e seu braço, mas não é assim. Na Câmara, você encontra várias cabeças que não pensam iguais a sua. Quando se tem alguns projetos de lei, você tem que discutir, dialogar e, pela maioria das vezes, o teu projeto tende a não seguir em frente”, lamenta.

Reeleição 
Apesar dos queixumes e pesares, a maioria esmagadora dos vereadores, incentivada pelo bom salário, desafio ou apoio do partido, arrisca a reeleição. Se a primeira vitória nas urnas foi uma aposta da população da cidade, o “bicampeonato” vira, em linhas gerais, a confirmação de um bom trabalho nos primeiros quatro anos.

“A primeira eleição não é uma avaliação, é uma aposta. As pessoas mais próximas, como família, amigos, alunos, no meu caso, apostam em você, confiam em um bom trabalho, te impulsionam, sabem do que você é capaz. Mas os novos eleitores, não. Nós torcemos para que votem conscientemente, que se identifiquem com os projetos e ideias, e que te deem um voto de confiança. Depois disso, são quatro anos de primeiro mandato e a reeleição, ou não, se torna uma avaliação”, opina Kenny.

“Ser reeleito é uma forma de mostrar que deu conta do recado. Não se pode perpetuar no cargo, mas também não concordo com ser eleito em primeiro mandato e depois pular fora do barco ou ter novas pretensões políticas antes de receber a avaliação dos munícipes”, completa o vereador do DEM.

Assim como em todas as profissões, há os bons e os ruins. Na política não é diferente, mesmo com a tendência de que se olhe apenas para os corruptos. Entre os vereadores, mais especificamente, também há os que fazem, os que tentam fazer e os que não fazem. Para que a Câmara seja composta por representantes fidedignos da população, é preciso votar de forma consciente, fiscalizar o escolhido e saber de suas responsabilidades. Caso contrário, os clichês nunca deixarão de existir. 



Cargo político é profissão? 
Para muitos, o cargo político - seja como vereador, deputado ou qualquer outro -, é encarado como profissão, daí o termo popular “político profissional”. E não que a voz do povo seja a voz de Deus, mas em muitos casos existem, sim, vereadores que desistem já na primeira legislatura. É o caso do vereador de Peruíbe, Ricardo Corrêa (PT). 

Petista desde a década de 80 – quando o partido foi fundado –, ele conta que continua como militante até hoje. Em 2002, foi candidato a deputado estadual representando os bancários, mas não conseguiu ser eleito. Já em 2012, a história foi diferente ao conseguir se eleger como vereador de Peruíbe; cidade que escolheu para legislar por seus pais viverem no local há 40 anos.

Já estando na Câmara, foi líder da prefeita Ana Preto (PTB) durante grande parte do mandato e foi um dos que mais trouxe emendas para o município. Ainda assim, seu envolvimento com as questões da cidade e seus munícipes não foi suficiente para ele buscar um novo mandato. A justificativa?

Apesar da reportagem ter apurado que o político não tem um bom relacionamento com seus colegas de Câmara e que esse seria um dos motivos de não buscar uma reeleição, Corrêa explica de outra forma. Ele se diz contra a cultura presente no meio político nacional de se perpetuar no poder e opina que existem vários vereadores que estão há, por exemplo, quatro mandatos e não fizeram “nada” para justificar todos estes anos de Câmara Municipal.

Para isso, o vereador pretende formar sucessores jovens, que, segundo ele, são a esperança de uma política melhor. “Já fiz a minha parte. Agora gostaria muito de ver alguns jovens do meu partido no meu lugar”, diz o petista, que, semanalmente, conduz reuniões com jovens de seu partido.

No legislativo municipal, ele apresentou apenas um projeto de lei e diz que teve outras formas melhores de beneficiar a cidade do que as tradicionais atribuições de um vereador. “Vi que a grande maioria dos projetos eram de pouca relevância ou utilidade. E, quando são aprovados, na maioria das vezes não são colocados em prática”, explica.

Em contrapartida, o vereador explica que uma das formas de justificar seu trabalho pela cidade foi buscando emendas parlamentares advindas das câmaras estadual e federal, aproveitando o grande número de amigos deputados do PT. No total, ele conseguiu investimentos de aproximadamente R$ 2 milhões.

A importância do “LIKE”
Propomos a você um exercício: vá em sua rede social preferida, e pesquise pelo nome do político mais velho que lembrar. Até ele terá o seu perfil. Por quê?

Há um movimento recente na política brasileira de tentar aproximar o eleitor do eleito. Em um cenário ríspido e cercado de concorrência, qualquer diferencial pode ser decisivo. E é assim que a presença na web é vista.

Até pouco tempo atrás, não se dava a devida importância ao relacionamento com o munícipe na internet. “Ninguém vai votar em mim por causa disso”. Hoje, o discurso já é diferente e há investimento maciço em boas apresentações on-line. Nas eleições municipais há quatro anos, por exemplo, uma lei desautorizou o patrocínio a publicações no Facebook às vésperas das eleições, que fazem com que determinada mensagem chegue a um número bem maior de pessoas daquela cidade em específico.

“É um trabalho contínuo e de longo prazo, pois pressupõe a construção de relacionamento e também o fortalecimento da cidadania e do sentimento de pertencimento dos cidadãos pela sua cidade. É preciso estar sempre perto da população”, diz Amanda Guerra, coordenadora de mídias sociais da Prefeitura de Santos.

Há a expectativa de que as próximas eleições municipais sejam cercadas por tecnologia. Vários pré-candidatos já iniciaram campanhas nas redes sociais e querem “largar na frente”. Se há pouco tempo era comum apenas buscar votos pessoalmente, em eventos com lideranças de bairros, hoje é possível ter a empatia do eleitor também por meio da tela do computador ou do celular.

“Eu aposto em uma eleição municipal cercada de disputas nas redes sociais. Candidatos que mostravam rejeição já estão presentes com perfis oficiais, vídeos, textos. A presença na internet é cada vez mais importante e não adianta fazer de qualquer jeito. Quem procura especialistas e investe em tecnologia, sai na frente”, garante o jornalista Aldo Neto, especialista em redes sociais.

Atualmente, uma parte significativa do eleitorado procura pelos políticos nas redes sociais. Alguns esperam pelos projetos aprovados e querem saber mais do dia a dia de quem escolheu nas urnas, enquanto outros muitos cobram por melhorias do seu cotidiano e/ou pedem favores.

Independentemente dos motivos que fazem o munícipe procurar por um determinado político na web, é raro algum deles não ter pelo menos um perfil. E há quem esteja presente em todas as redes sociais, com publicações diárias e uma grande equipe de comunicação e marketing na retaguarda. É o caso de Kenny Mendes, vereador de Santos pelo DEM.

Eleito em 2012 para o primeiro mandato, o professor baseou sua campanha na proximidade com a população e prometeu fazer um “Big Brother” do seu a dia caso eleito. E deu certo. Nono vereador mais votado em Santos, Kenny tem toda a sua agenda publicada nas redes sociais. E mais: o edil atende a necessidades dos munícipes expostas por mensagens ou comentários no Facebook.

“Disse desde o começo que não ia aparecer apenas em ano eleitoral. Prometi que faria um BBB político, e é o que faço. Todos os meus trabalhos, mais de 3000, estão disponibilizados. Tenho o hábito de filmar todas as ações. Arrumei um monte de inimizades no Plenário. Dizem que pega mal, que a eleição ainda vai demorar. Mas quando veem as pesquisas, com meu nome em evidência, graças a Deus, percebem que esse tipo de política antiga não existe mais. Muitos que me seguem nem sabiam as atribuições de um vereador”, aponta Kenny.

O professor possui uma equipe, com jornalistas e publicitários, e o projeto audiovisual “Na Rua” tornou-se referência. Kenny visita bairros da cidade de Santos e ouve os moradores sobre as necessidades do local. Tudo filmado e publicado na web.

“Cada vídeo é uma viagem por um bairro diferente. Quem está no bairro não quer se ver esculachado, quer que mostre o problema, mas que mostre pessoas. É um roteiro. A demanda é grande, é até difícil de controlar. Já fui de madrugada ao Posto de Saúde para ajudar pacientes que estavam horas na fila. Recebo pré-candidatos a vereador da Baixada Santista, de São Paulo e até do Rio de Janeiro para conhecer o Na Rua. Recebo todos, independentemente do partido. Fico feliz por poder ajudar”, completa o vereador, que é canadense, mas naturalizado brasileiro.

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